terça-feira, 16 de agosto de 2016

Explanação 4 - Os Cinco Festivais Sazonais

Budismo do Sol

Escrito 4: Os Cinco Festivais Sazonais

Brasil Seikyo, Edição 2334, 06/08/2016, pág. B1-B3 / Encontro com o Mestre

A luta conjunta de mestre e discípulo — o caminho da honra eterna

Escrito 4

Os Cinco Festivais Sazonais

Considere os fatos desse modo e recite Nam-myoho-renge-kyo. Não pode haver dúvida sobre as palavras “desfrutarão paz e segurança na presente existência e boas circunstâncias nas existências futuras”.

A passagem do sutra esclarece perfeitamente que todos os seres celestiais, sem a mínima dúvida, protegerão com afinco os praticantes do Sutra do Lótus. O quinto volume do Sutra do Lótus declara: “Os seres celestiais os guardarão e os protegerão constantemente, dia e noite, em prol da Lei”. Novamente, expressa: “Os jovens filhos dos seres celestiais irão apoiá-lo e protegê-lo. Não será tocado por espadas nem por bastões, e o veneno não lhe causará dano (...)”.

Você (...) afirma que se tornou meu discípulo quando lhe disseram que o Sutra do Lótus infalivelmente se propagaria nos primeiros quinhentos anos dos Últimos Dias da Lei. A relação de mestre e adepto leigo resulta de um laço que se estende pelas três existências. Jamais busque os benefícios da semeadura, maturação e colheita com mais ninguém. Não há possibilidade de esses ditos dourados estarem errados: “As pessoas que ouviram a Lei habitaram aqui e ali, em várias terras do buda, e constantemente renasceram em companhia de seus mestres” e “Se as pessoas permanecerem ao lado dos mestres da Lei, elas entrarão rapidamente no caminho do bodisatva. Quem segue esses mestres e aprende com eles verá budas tão numerosos quanto os grãos de areia do Ganges”. (WND, v. II, p. 374-375)

Introdução

“Por que se tornou escritor?”, “O que é mais importante para você?”, “Como podemos prevenir a violência?” Ao lerem alguns de meus livros infantis em sala de aula, alunos de uma escola de ensino fundamental da Argentina decidiram me escrever formulando essas e muitas outras perguntas (em 1997).

Como sempre acontece quando se trata de crianças, as questões eram francas e diretas. Uma indagou sobre o que faço no dia a dia. Respondi-lhe que dedico a maior parte do meu tempo para incentivar e apoiar os outros. Ajo dessa forma por estar convicto de que a base para a paz reside na felicidade de cada indivíduo, e incentivar pessoas é um sólido primeiro passo para a paz.

Além disso, expressei honestamente que escrevo com a esperança de que minhas palavras possam servir de fonte de encorajamento a alguém em algum lugar.

Outro estudante me perguntou quantos anos eu tinha quando comecei a trabalhar pela paz mundial. Eu lhe respondi contando a história do encontro com meu mestre, segundo presidente da Soka Gakkai, Josei Toda, aos 19 anos. Expliquei que meus esforços em prol da paz se iniciaram no momento em que encontrei meu verdadeiro mestre na vida, que me ensinou o nobre caminho de contribuir com a humanidade.

Fazendo do coração do mestre o meu, devotei incansavelmente a minha vida a essa causa, determinado a construir uma era de paz para deixá-la como legado à próxima geração — o tesouro do futuro.

Quando encontramos um mestre verdadeiro e nos empenhamos como discípulos genuínos, podemos trilhar o curso correto na vida, com transbordante alegria e realização.

Há incontáveis exemplos inspiradores de luta conjunta de mestre e discípulo durante a existência de Nichiren Daishonin — os esforços dele para propagar seu ensinamento correto e os dos discípulos que fervorosamente buscavam e seguiam esse ensinamento.

Vamos estudar, nesta parte o escrito de Daishonin Os Cinco Festivais Sazonais e ratificaremos os profundos laços cármicos que unem mestre e discípulos.


Encontrar-se com o mestre que propaga o ensinamento correto nos Últimos Dias da Lei

Trecho 1 do Gosho

Considere os fatos desse modo e recite Nam-myoho-renge-kyo. Não pode haver dúvida sobre as palavras “desfrutarão paz e segurança na presente existência e boas circunstâncias nas existências futuras” [LSOC, cap. 5, p. 136].

A passagem do sutra esclarece perfeitamente que todos os seres celestiais, sem a mínima dúvida, protegerão com afinco os praticantes do Sutra do Lótus. O quinto volume do Sutra do Lótus declara: “Os seres celestiais os guardarão e os protegerão constantemente, dia e noite, em prol da Lei” [LSOC, cap. 14, p. 245]. Novamente, expressa: “Os jovens filhos dos seres celestiais irão apoiá-lo e protegê-lo. Não será tocado por espadas nem por bastões, e o veneno não lhe causará dano (...)” [Ibidem, p. 249].
Você (...) afirma que se tornou meu discípulo quando lhe disseram que o Sutra do Lótus infalivelmente se propagaria nos primeiros quinhentos anos dos Últimos Dias da Lei. A relação de mestre e adepto leigo resulta de um laço que se estende pelas três existências. (WND, v. II, p. 374-375)

O escrito Os Cinco Festivais Sazonais é uma carta que Nichiren Daishonin enviou a um discípulo chamado Akimoto Taro,1 que vivia no distrito de Imba, província de Shimosa (atual cidade de Shiroi, na província de Chiba).

Pelas observações iniciais de Daishonin neste escrito, podemos concluir que Akimoto Taro enviara uma carta a Nichiren Daishonin na qual descreve sua alegria por encontrar um mestre correto e um ensinamento correto,2 e depois inquire sobre o significado dos cinco festivais sazonais3 realizados costumeiramente naquela época.

Alguns desses tradicionais festivais ainda são celebrados no Japão atualmente, incluindo o Festival das Bonecas (ou o Dia das Meninas), em 3 de março; o Dia das Crianças (ou Dia dos Meninos), em 5 de maio; e o Tanabata (ou Festival das Estrelas), em 7 de julho.

Todos os países possuem suas celebrações. Tais tradições não diferem somente de país para país, mas também mudam com o passar do tempo. O budismo não rejeita festividades acolhidas como parte integrante da vida da localidade; ensina o preceito de se adaptar aos costumes locais4 que afirma que os costumes e as convenções sociais devem ser respeitados e seguidos, contanto que não contradigam os ensinamentos do budismo ou interfiram na consecução do estado de buda.

Com base nisso, Nichiren Daishonin escreve: “Em primeiro lugar, ao ponderarmos sobre a ordem dos cinco festivais sazonais, verificamos que correspondem à ordem dos cinco ideogramas do Myoho-renge-kyo” (WND, v. II, p. 374).

A essência dos cinco festivais sazonais está contida nos cinco ideogramas do Myoho-renge-kyo, a Lei que permeia todos os fenômenos. Quando baseamos nossa vida na Lei Mística, podemos desfrutar e celebrar eventos sazonais, inclusive o Ano-Novo, da maneira mais positiva e significativa possível e passar a ter naturalmente a vida mais feliz e saudável. Essa é a forma de desfrutar plenamente nossa existência presente e experimentar um estado de vida maravilhoso também na próxima.

Os seres celestiais protegerão os praticantes do Sutra do Lótus

Nichiren Daishonin garante que aqueles que abraçam os cinco ideogramas do Myoho-renge-kyo sempre serão protegidos e apoiados, durante todas as quatro estações, dia e noite, por essas grandes divindades celestiais, como Brahma e Shakra.

Nessa parte, ele cita duas passagens do capítulo “Práticas Pacíficas” (14º) do Sutra do Lótus. Primeira, “Os seres celestiais os guardarão e os protegerão constantemente, dia e noite, em prol da Lei” (LSOC, cap. 14, p. 245). Isso foi demonstrado inquestionavelmente durante a existência de Daishonin, e é um fato que os membros da Soka Gakkai desde os primórdios da organização vêm experimentando e evidenciando de forma efetiva na própria vida.

Segunda, “Os jovens filhos dos seres celestiais irão apoiá-lo e protegê-lo. Não será tocado por espadas nem por bastões, e o veneno não lhe causará dano” (Ibidem, p. 249). Essas palavras atestam que por mais que os praticantes do Sutra do Lótus possam ser atacados ou perseguidos, as forças positivas do universo os protegerão integralmente.

Ao concluir sua resposta, Nichiren Daishonin incentiva Akimoto Taro a recitar Nam-myoho-renge-kyo no ensejo de cada um dos cinco festivais sazonais, assim como faz em outras ocasiões, e a “alcançar o caminho” (WND, v. II, p. 375), ou seja, consolidar um estado de total realização.6

Mestre e discípulo — laço que se estende pelas “três existências”

“A relação de mestre e adepto leigo resulta de um laço que se estende pelas três existências” (WND, v. II, p. 375), escreve Daishonin, afirmando que o vínculo entre mestre e discípulo é eterno. Eles não se tornaram mestre e discípulo pela primeira vez nesta existência; estão ligados por um juramento que abarca as “três existências” — passado, presente e futuro. Ao tomar conhecimento desse laço eterno, Akimoto Taro deve ter se emocionado e se alegrado profundamente.

O presidente fundador da Soka Gakkai, Tsunesaburo Makiguchi, sublinhou essa passagem em seu exemplar dos escritos de Nichiren Daishonin. Ela é extremamente importante por enunciar um conceito que representa o âmago do Budismo de Nichiren Daishonin e o espírito da Soka Gakkai.

O budismo é um ensinamento de mestre e discípulo. Sem a relação mestre-discípulo, a realização do kosen-rufu, a concretização da felicidade de toda a humanidade, seria impossível. O mestre está determinado a transmitir aos discípulos o estado de vida do Buda, o de ajudar a libertar as pessoas do sofrimento. Os discípulos assumem para si o modo de vida do mestre, buscando atingir nesse processo o mesmo elevado estado.

Quando surgir um grupo de pessoas comuns que lutem unidas ao seu mestre como um só corpo, elas abrirão o caminho para elevar não apenas o estado de vida de cada uma, mas para transformar o destino da humanidade.

O mestre se empenha para guiar os discípulos ao mesmo estado de vida que ele alcançou; os discípulos tentam viver de acordo com o exemplo do mestre. Lutar juntos com um compromisso comum constitui a essência da unicidade de mestre e discípulo.

E esse laço entre mestre e discípulos não se limita a esta vida. O Sutra do Lótus ensina claramente que esse vínculo perdura pelas “três existências”.

O Sutra do Lótus se concentra particularmente em ajudar os seres vivos a atingir a iluminação durante os Últimos Dias da Lei, uma era de conflito7 na qual as pessoas se tornarão alienadas do ensinamento correto do budismo, levando-o a se obscurecer e se perder na escuridão e fazendo a escuridão e a ignorância predominarem. No entanto, numa época como essa, ainda existem aqueles que buscam sinceramente o ensinamento correto. Encontrando um mestre correto que exponha o ensinamento correto, eles dedicam a vida ao lado do mestre com o mesmo juramento e compromisso abnegado.

O laço que esses discípulos compartilham com o mestre não se limita a esta existência, mas perdura do distante passado ao eterno futuro. Incorporando o mesmo comportamento compassivo do Buda em suas ações, eles cumprem sua missão fundamental como bodisatvas da terra. Consequentemente, ativam nas profundezas de sua vida um estado originalmente inerente nas três existências — o estado de buda. Não há modo de vida mais nobre ou mais maravilhoso.

Publicado em agosto de 2015 na revista Daibyakurenge.

Notas

1- Akimoto Taro: Também conhecido como Akimoto Taro Hyoe-no-jo. Seguidor leigo de Nichiren que vivia no distrito de Imba, província de Shimosa, Japão. Pouco se sabe sobre ele, mas aparentemente mantinha amizade com Soya Kyoshin e Ota Jomyo, seguidores leigos de Daishonin e moradores da mesma região. Nesta carta, Daishonin afirma: “Quanto aos detalhes, expliquei a questão a Soya; portanto, converse com ele quando tiver oportunidade” (WND, v. II, p. 374). E outra carta para Ota Jomyo, Daishonin expressa: “Expliquei questões referentes à doutrina em detalhes na resposta que escrevi para Akimoto Taro Hyoe-no-jo. Por favor, leia o que apontei lá (Ibidem, p. 874).

2- Nichiren Daishonin escreve: “Analisei cuidadosamente a sua carta. Nela você afirma que estava preocupado acerca de que ensinamento seria melhor propagar nos primeiros quinhentos anos do Últimos Dias da Lei. E que, ao encontrar a instrução do venerável Nichiren e ouvir que se deve propagar somente o daimoku do Sutra do Lótus, decidiu se tornar um de meus discípulos” (WND, v. II, p. 374).

3- Os cinco festivais sazonais: Festividades adotadas pela corte imperial japonesa em épocas antigas, incorporando costumes da China e refletindo tradições sazonais japonesas. Ocorriam na primeira semana do primeiro mês, no terceiro dia do terceiro mês, no quinto dia do quinto mês, no sétimo dia do sétimo mês e no nono dia do nono mês. Nesses eventos, realizavam-se cerimônias e preparavam-se pratos especiais na celebração. No calendário moderno acontecem no dia 7 de janeiro (Festival de Ano-Novo), no dia 3 de março (Festival das Meninas), no dia 5 de maio (Festival dos Meninos), no dia 7 de julho (Festival das Estrelas) e no dia 9 de setembro (Festival dos Crisântemos).

4- Preceito de se adaptar aos costumes locais (zuiho bini, em japonês): Um preceito budista que afirma que, no tocante a questões que o Buda não permitiu ou proibiu expressamente, a pessoa pode agir segundo os costumes locais, contanto que os princípios fundamentais do budismo não sejam violados. O preceito de se adaptar aos costumes locais foi empregado quando o budismo seguiu para várias regiões com diferentes culturas, usos e costumes, climas e outros aspectos humanos e naturais. Embora essa orientação não proíba nem prescreva nenhum comportamento específico, é descrita como preceito.

5- Explicando o significado da passagem “Os jovens filhos dos seres celestiais irão apoiá-lo e protegê-lo. Não será tocado por espadas nem por bastões, e o veneno não lhe causará dano” (LSOC, cap. 14, p. 249), Daishonin escreve nesta carta que os “seres celestiais” indicam Brahma e Shakra; os Deuses do Sol e da Lua, os quatro grandes reis celestiais e outros semelhantes a eles. A “Lei” refere-se ao Sutra do Lótus. Os “jovens filhos” indicam os sete corpos luminosos, as vinte e oito constelações, Marichi [em sânscrito; Marishiten (em japonês) — deus considerado originariamente como personificação dos raios do sol] e semelhantes. As palavras “Aqueles que se juntam à batalha estão todos nas linhas de frente” correspondem à passagem “Não será tocado por espadas e bastões” (WND, v. II, p. 374-375).

6- Daishonin escreve: “O que estou transmitindo é excepcionalmente importante. Certifique-se de refletir cuidadosamente sobre esses fatos. O sexto volume do Sutra do Lótus expressa: “Nenhuma questão da vida ou do trabalho jamais contraria a verdadeira realidade’. Portanto, mesmo ao comemorar os cinco festivais sazonais, simplesmente recite Nam-myoho-renge-kyo e se empenhe para alcançar o caminho. Explicarei em detalhes em outra ocasião” (WND, v. II, p. 375).

7- Uma era de conflito: Também descrita como uma era de brigas e disputas. Referência à descrição do quinto período de quinhentos anos após a morte do Buda apresentada no Sutra da Grande Compilação, que diz que nesta era — que corresponde aos Últimos Dias da Lei — as escolas budistas rivais brigarão incessantemente entre si e o ensinamento correto de Shakyamuni ficará obscurecido e se perderá.


Budismo do Sol
Escrito 4: Os Cinco Festivais Sazonais

Brasil Seikyo, Edição 2335, 13/08/2016, pág. B1 / Encontro com o Mestre

A luta conjunta de mestre e discípulo ­— o caminho da honra eterna

Continuação do escrito 4

Trecho 2 do Gosho

Jamais busque os benefícios da semeadura, maturação e colheita com mais ninguém. Não há possibilidade de esses ditos dourados estarem errados: “As pessoas que ouviram a Lei habitaram aqui e ali, em várias terras do buda, e constantemente renasceram em companhia de seus mestres” e “Se as pessoas permanecerem ao lado dos mestres da Lei, elas entrarão rapidamente no caminho do bodisatva. Quem segue esses mestres e aprende com eles verá budas tão numerosos quanto os grãos de areia do Ganges” [cf. LSOC, cap. 10, p. 208] (WND, v. II, p. 375).

Os três benefícios da “semeadura, maturação e colheita”

Nichiren Daishonin explica a grande profundidade da relação mestre-discípulo por meio do ensinamento dos três benefícios da “semeadura, maturação e colheita” (WND, v. II, p. 375).1

No Sutra do Lótus, a partir do capítulo “Meios Apropriados” (2º), Shakyamuni apresenta as doutrinas do “verdadeiro aspecto de todos os fenômenos”2 e a “substituição dos três veículos pelo veículo único”3, e também emprega várias parábolas para elucidar seu ensinamento. Em seguida, em benefício de seus discípulos ouvintes da voz, explana a ligação que eles compartilham e por que e como expusera a Lei para eles não apenas naquela existência, mas desde o passado incalculavelmente remoto. Em outras palavras, ele plantou as sementes da iluminação na vida de seus discípulos há incontáveis aeons, cuidou delas por um longo período, ensinando-os e guiando-os de várias maneiras para levá-los à maturação para que agora, por meio de sua pregação do Sutra do Lótus, atinjam a iluminação idêntica à sua, colhendo o fruto do estado de buda e se libertando completamente de todo sofrimento.

Em Carta para Akimoto, também enviada a Akimoto Taro numa ocasião posterior, Daishonin escreve: “A doutrina da semeadura, maturação e colheita compõe o coração do Sutra do Lótus" (WND, v. I, p. 1015). Os três benefícios da “semeadura, maturação e colheita” descrevem um processo vital para se atingir o estado de buda exposto somente no Sutra do Lótus.

Por meio desse ensinamento, Shakyamuni tenta transmitir que seus discípulos não podem esperar atingir o estado de buda por intermédio dos ensinamentos de outro mestre a não ser daquele com quem mantêm uma ligação cármica mais profunda, o mestre que pregou o Sutra do Lótus e plantou a semente do estado de buda na vida deles. Esse mestre é como um habilidoso agricultor que conhece a forma apropriada de cuidar das sementes que ele plantou e zelar por elas até a época da colheita.

Como prova documental do laço eterno de mestre e discípulo apresentado no capítulo “Parábola da Cidade Imaginária” (7º) do Sutra do Lótus, Daishonin cita a passagem: “As pessoas que ouviram a Lei habitaram aqui e ali, em várias terras do buda, e constantemente renasceram em companhia de seus mestres” (LSOC, cap. 7, p. 178).4 Como esse fato demonstra, os mestres da Lei continuam instruindo e guiando seus discípulos pelas “três existências”. Os discípulos buscam e seguem incessantemente o ensinamento de seus mestres, e os mestres apoiam e auxiliam incessantemente seus discípulos. A relação mestre-discípulo do budismo é o laço humano mais belo de todos.

De sua parte, os discípulos não percebem simplesmente que têm estado “na companhia” de seus mestres. Mais que isso, despertam para a luta conjunta — a prática de bodisatva — que vêm empreendendo ao lado de seu mestre existência após existência. Os discípulos passam a adotar um modo de vida fundamentado no reconhecimento de seu verdadeiro eu — distanciando-se da postura passiva de buscar a salvação a partir do mestre e passando a se empenhar ao lado do mestre pelo bem-estar de toda humanidade. Esse é o significado de lutar para cumprir o juramento como bodisatva.

Despertarmos para nossa missão eterna

O presidente Josei Toda nos ensinou sobre o juramento firmado pelos bodisatvas da terra. No processo de sua luta de vida e morte, ele compreendeu nas profundezas de seu ser a passagem “As pessoas que ouviram a Lei habitaram aqui e ali, em várias terras do buda, e constantemente renasceram em companhia de seus mestres” (LSOC, cap. 7, p. 178).

Durante a Segunda Guerra Mundial, o presidente Toda foi perseguido pelas autoridades militaristas japonesas e preso junto com seu mestre, Makiguchi. Dando continuidade à sua luta destemida, na prisão ele leu o Sutra do Lótus com todo o seu ser e despertou para as verdades profundas do budismo. Uma de suas constatações foi a de que buda é a própria vida. Também, durante a recitação de daimoku num momento de ponderação profunda despertou para o seu verdadeiro eu de bodisatva da terra. Também poderíamos dizer que ele despertou para a missão eterna de mestre e discípulo — a missão de realizar o kosen-rufu ou a ampla propagação da Lei Mística. Além disso, obteve a profunda percepção de que o laço de mestre e discípulo é eterno.

Essa é a essência da convicção da Soka Gakkai, o próprio espírito da organização.

Por volta da mesma época em que Toda sensei vivenciava o seu despertar, o professor Makiguchi, que perseverara em sua prática budista na prisão, sem poupar a vida, morria de desnutrição e pela fragilidade decorrente da idade avançada. Ele dera a vida à luta incansável para sustentar o ensinamento e princípios corretos do Budismo de Nichiren Daishonin.

Na terceira cerimônia em memória (segundo aniversário de falecimento) do professor Makiguchi, Josei Toda afirmou:

Em sua vasta e ilimitada compaixão, o senhor permitiu-me acompanhá-lo até mesmo à prisão. Em virtude disso, pude ler com todo o meu ser a passagem do Sutra do Lótus “As pessoas que ouviram a Lei habitaram aqui e ali, em várias terras do buda, e constantemente renasceram em companhia de seus mestres” (LSOC, cap. 7, p. 178). O benefício resultante disso foi vir a ter conhecimento de minha existência anterior como bodisatva da terra e absorver, com a totalidade de minha vida, mesmo uma pequena fração do significado do sutra. Poderia haver felicidade maior do que esta?5

Tsunesaburo Makiguchi e Josei Toda, mestre e discípulo, eram unidos como se fossem um em seu poderoso compromisso na fé de dar até mesmo a vida pela realização do kosen-rufu, o desejo acalentado pelo mestre original deles, Nichiren Daishonin. Toda sensei sobreviveu à provação na prisão, jurou dar continuidade ao trabalho do seu mestre e, ao ser libertado, iniciou a reconstrução da Soka Gakkai e se lançou a uma luta plena e total em prol da expansão do kosen-rufu com base no espírito de unicidade de mestre e discípulo.

A ligação entre mestre e discípulo é eterna. Toda sensei disse que estaria junto do presidente Makiguchi novamente nas existências futuras, e que nós — Josei Toda e seus discípulos — também estaríamos juntos.

Modo correto de vida

No período turbulento que se seguiu à Segunda Guerra Mundial, tive um encontro decisivo em minha vida com meu extraordinário mestre, Josei Toda.

No dia 14 de agosto de 1947, aos 19 anos, participei da minha reunião de palestra na Soka Gakkai. Um amigo havia me convidado alegando se tratar de uma atividade para discutir “filosofia de vida”.

Fazia dois anos desde o fim da guerra. Eu pertencia a um grupo de leitura no qual quase todas as noites meus amigos e eu debatíamos questões como “qual o modo correto de vida?”. Dizíamos uns aos outros que, se houvesse alguém capaz de responder todas as nossas indagações, acataríamos essa pessoa como mestre.

Na reunião de palestra, um homem usando óculos de lentes grossas estava proferindo suas palavras com voz cheia de vida, convicta e animada: “Seja no âmbito individual, familiar ou como nação, a menos que solucionemos nossos problemas em sua essência, com base nesta filosofia budista, não realizaremos progresso algum”. Ele também afirmou: “Quero eliminar a miséria da face da Terra!”.

Esse homem era Josei Toda, e ele estava explanando o tratado de Nichiren Daishonin Estabelecer o Ensinamento Correto para a Pacificação da Terra. Depois de sua preleção e da sessão de perguntas e respostas que se seguiu, ele se dirigiu a mim com uma intimidade calorosa de um velho amigo.

Perguntei-lhe com a franqueza típica dos jovens: “Poderia dizer qual o modo de vida correto?”.

Respondendo com um sorriso de que eu havia feito a pergunta mais difícil de todas, ele abordou a questão com total sinceridade, concluindo: “É excelente meditar sobre qual seria o modo correto de vida, mas empregaria melhor o seu tempo se tentasse praticar o Budismo de Nichiren Daishonin. Você é jovem. Se o fizer, um dia com certeza constatará que está seguindo o caminho correto na vida. Posso lhe dar a minha palavra de que isto é verdade”.

Formulei outras questões que meus amigos e eu estivéramos debatendo, como “o que é um autêntico patriota?”. Também lhe perguntei sobre o Nam-myoho-renge-kyo, que ele havia citado durante a explanação.

Ele respondeu a todas as minhas perguntas com clareza e segurança. Apesar da minha pouca idade, ele falava comigo de igual para igual e era gentil e paciente em suas respostas. Fiquei profundamente comovido e senti intuitivamente que poderia depositar confiança nele.

Dez dias depois, em 24 de agosto de 1947, associei-me à Soka Gakkai. Desde aquela data, 68 anos se passaram até hoje [2015], e pude trilhar um caminho correto e genuíno na vida, exatamente como Toda sensei ensinou.

A gratidão que sinto pelo meu mestre não tem tamanho. Projetando em minha mente a imagem do seu rosto, ainda converso com ele em meu coração todos os dias.

“Seguir os mestres da Lei e aprender com eles”

Retornando à carta que estamos estudando, Daishonin cita em seguida, uma passagem do capítulo “O Mestre da Lei” (10º) do Sutra do Lótus que expressa: “Se permanecer ao lado dos mestres da Lei, entrará rapidamente no caminho do bodisatva. Quem segue esses mestres e aprende com eles verá budas tão numerosos quanto os grãos de areia do Ganges” (LSOC, cap. 10, p. 208).

“Seguir os mestres da Lei e aprender com eles” — isso indica encontrar um mestre na fé e seguir esse mestre e aprender com ele. A relação mestre-discípulo reside na consciência do discípulo.

Sempre pratiquei exatamente como o presidente Toda me instruiu e declarei, sem hesitação, que sou seu discípulo. Quando os negócios dele estavam com problemas, eu o apoiei e o auxiliei, decidido a compartilhar do seu destino. Então, ao assumir como segundo presidente, Toda sensei anunciou seu objetivo de expandir o número de associados da Soka Gakkai para 750 mil famílias durante a sua existência.

Estou certo de que nossa luta conjunta de mestre e discípulo naquela época produziu uma onda crescente de benefícios — nenhum esforço permanece sem recompensa no âmbito da Lei Mística — e abriu o caminho para a Soka Gakkai se tornar uma organização budista realmente mundial.

Quando nos empenhamos como discípulos ao lado do nosso mestre, conseguimos ampliar nosso estado de vida ilimitadamente.

Na luta conjunta de mestre e discípulo, os discípulos se esforçam para desafiar a si mesmos no caminho de sua missão, para triunfar e relatar em seu coração as vitórias ao mestre. Sempre me dediquei seriamente com essa determinação sob a liderança do presidente Toda, e essa determinação se mantém inalterada até hoje.

Distância física não importa na relação mestre-discípulo. Nichiren Daishonin não pôde se encontrar com muitos de seus discípulos pessoalmente em sua existência, inclusive os discípulos camponeses de Atsuhara [dentre os quais três sacrificaram a vida durante a Perseguição de Atsuhara].

Mesmo que mestre e discípulo possam estar distantes fisicamente, o coração deles está sempre ligado e a vida deles vibra em perfeita sintonia, transcendendo o tempo. Nem tempo nem espaço são barreiras que separam mestre e discípulo.

O grande caminho do compromisso compartilhado que brilhará eternamente

Na beleza do laço de mestre e discípulo existe o esplendor da vitória como ser humano. Se o nosso coração estiver unido ao do mestre, podemos alcançar a revolução humana. Se o nosso coração estiver unido ao do mestre, conseguimos realizar o kosen-rufu.

Pelo fato de o nosso coração estar unido ao do mestre, podemos avançar eternamente pelo grandioso caminho da paz e da justiça.

“Se o mestre tiver um bom discípulo, ambos obterão o fruto do estado de buda” (WND, v. I, p. 909), escreveu Daishonin.

O movimento para propagar o ensinamento correto implementado pelos mestres e discípulos do Budismo de Nichiren Daishonin — que prossegue pelas “três existências” — ampliou-se agora para 192 países e territórios. Com certeza, Nichiren Daishonin está aplaudindo nossos esforços de todo coração.

Entramos numa nova era, na qual pessoas do mundo inteiro, de todas as esferas, estão expressando confiança e alta expectativa em relação à nossa nobre rede Soka, alicerçada no espírito de mestre e discípulo.

Aqueles que possuem um mestre na vida jamais ficam num beco sem saída. Eles sempre conseguem abrir o caminho para a vitória. Não existe vida mais honrada.

A epopeia da unicidade de mestre e discípulo perdurará por toda a eternidade. O laço de mestre e discípulo provém do juramento de travar uma luta conjunta pelas “três existências”.

Somos eternos companheiros que, desde o tempo sem início, vêm sustentando a Lei que expressa as ações de todos os budas e bodisatvas. Juntos, continuemos trilhando a grandiosa estrada dos discípulos, dos sucessores e do compromisso conjunto — um caminho que resplandecerá para todo o sempre.

Publicado em agosto de 2015 na revista Daibyakurenge.

1- “Semeadura, maturação e colheita”: Referência às três fases do processo por meio do qual um buda conduz as pessoas à iluminação e que correspondem ao crescimento e desenvolvimento de uma planta. Em primeiro lugar, o Buda planta as sementes da iluminação no coração das pessoas, depois nutre-as de iluminação ajudando as pessoas a praticar a Lei e, por fim, habilita todas as pessoas a manifestar plenamente a condição de vida do estado de buda.

2- “Verdadeiro aspecto de todos os fenômenos”: Verdade ou realidade suprema que permeia todos os fenômenos e não está, de modo algum, separada deles. Por meio da explanação dos “dez fatores”, o capítulo “Meios Apropriados” (2º) do Sutra do Lótus ensina que todas as pessoas são dotadas inerentemente do potencial para ser tornar buda, e esclarece a verdade de que elas podem ativar e manifestar esse potencial.

3- “Substituição dos três veículos pelo veículo único”: Referência à declaração de Shakyamuni no Sutra do Lótus de que os três veículos não são fins em si, embora outros sutras provisórios aleguem o contrário, mas meios apropriados mediantes os quais ele conduz as pessoas ao veículo único do estado de buda. Os “três veículos” são os ensinamentos expostos para os ouvintes da voz, aqueles que despertaram para a causa e bodisatvas, respectivamente. O “veículo único” do estado de buda indica o ensinamento que possibilita que todas as pessoas atinjam o estado de buda e corresponde ao Sutra do Lótus.

4- Nesse capítulo, Shakyamuni revela a relação que ele formou com seus discípulos no passado remoto, quando ele foi o 16º filho, o caçula, de um buda chamado Excelência da Grande Sabedoria Universal. Shakyamuni descreve a vasta extensão de tempo que se passara a partir de então; um período denominado kalpa de partículas de pó de um grande sistema de mundos. Ele narra que há muito tempo ele e cada um de seus quinze irmãos expuseram o Sutra do Lótus que o pai lhes havia ensinado. Os discípulos atuais, explica Shakyamuni, estavam entre aqueles a quem ele havia ensinado o Sutra do Lótus e convertido na ocasião. E aqueles a quem os outros dezesseis filhos ensinaram o Sutra do Lótus também nasceram com seus respectivos mestres em várias terras do buda, onde praticaram o budismo sob instrução deles.

5- Traduzido do japonês. TODA, Josei. Toda Josei Zenshu [Coletânea de Orientações de Josei Toda]. Tóquio: Seikyo Shimbunsha.

segunda-feira, 4 de julho de 2016

Explanação 3 - Aspiração à Terra do Buda

Budismo do Sol

Escrito 3: Aspiração à Terra do Buda

Brasil Seikyo, Edição 2328, 18/06/2016 / Encontro com o Mestre

Kosen-rufu e vida — dedicação a um nobre ideal


O kosen-rufu é o desejo do Buda e o grandioso caminho da esperança da humanidade.

Não há vida mais valiosa e gratificante que aquela devotada à concretização do nobre ideal da paz mundial e da felicidade de todas as pessoas. Este ano [2015] assinala o 70º aniversário do fim da Segunda Guerra Mundial.

Em julho de 1945, diante dos escombros do Japão devastado, pouco antes do término da guerra, meu mestre, Josei Toda [posteriormente, segundo presidente da Soka Gakkai], firmou veemente o juramento de livrar o mundo da miséria e do sofrimento e deu o primeiro passo em seus esforços para propagar a Lei Mística.

A chama desse juramento acendeu a luz da esperança no coração de nós, jovens, um após o outro, inspirando-nos a construir uma nova era de paz. Como discípulos, avançamos na estrada dos nobres ideais que ele havia aberto. Isso marcou o início do magnífico desenvolvimento do kosen-rufu que alcançamos hoje.

Trecho do Gosho

Como deve ter percebido nesses ensinamentos, [o advento da grande Lei] já está diante de nossos olhos. Nos mais de dois mil e duzentos anos desde a morte do Buda, na Índia, na China, no Japão, e em todo o Jambudvipa [o grande mestre Tiantai declarou]: “Vasubandhu e Nagarjuna perceberam claramente a verdade em seu coração, mas não a transmitiram aos outros. Em vez disso, eles empregaram os ensinamentos do Mahayana provisório, que eram adequados à época”. Tiantai e Dengyo fizeram comentários gerais sobre isso; porém, deixaram a propagação para o futuro. A Lei secreta – a única grande razão do advento dos budas – será propagada pela primeira vez nesta nação. Quem, a não ser Nichiren, poderia cumprir essa tarefa? (...) O senhor não deve, de forma alguma, lamentar meu exílio. Nos capítulos “Encorajamento à Devoção” e “Bodisatva Jamais Desprezar” consta [que o devoto do Sutra do Lótus enfrentará perseguições]. A vida é limitada; não devemos poupá-la. O que, afinal, devemos aspirar é à terra do buda. (CEND, v. I, p. 222 - 223)

Jovens constroem a nova era

Julho é o mês de fundação da Divisão dos Jovens (DJ). [Tanto a Divisão Masculina de Jovens (DMJ) como a Divisão Feminina de Jovens (DFJ) foram instituídas pelo presidente Josei Toda em julho de 1951.]

No dia 11, de 1951, na reunião de fundação da DMJ, o presidente Josei Toda declarou: “O kosen-rufu é a missão que devemos realizar sem falta. Gostaria também que cada um de vocês tivesse a consciência de sua nobre participação neste empreen­dimento. Na história recente do Japão, os jovens foram a força propulsora à Restauração Meiji [em 1868]. Durante a existência de Nichiren Daishonin também, a maioria de seus discípulos era de jovens”.1 Desse modo, ele salientou que os jovens sempre são motivadores e agentes, os autores de uma nova era.

Na reunião de fundação da DFJ no dia 19 de julho do mesmo ano, ele disse: “Desejo que cada uma de vocês, sem exceção, se torne feliz. Até hoje, a história da mulher se resume a infortúnio e sofrimento nas mãos do destino. Como tiveram a boa sorte de abraçar a fé no Budismo de Nichiren Daishonin na juventude, vocês não precisam mais aceitar esse destino”.

Atualmente, um fluxo constante de rapazes e moças que assumiram para si o grande juramento do kosen-rufu está surgindo ao redor do mundo. Quão maravilhado se sentiria o presidente Josei Toda ao observar os vibrantes esforços de tantos jovens bodisatvas da terra trabalhando para promover o nosso movimento em âmbito mundial! Também fico muito feliz por ter dedicado a vida à realização do grande sonho do meu mestre.

Com o espírito de estudar com os jovens, quero discutir alguns trechos do escrito de Nichiren Daishonin que acato com a mais profunda seriedade desde a época da Divisão dos Jovens.

A adversidade é uma honra — o grande caminho do juramento seigan

O trecho citado na página B1 é do escrito Aspiração à Terra do Buda, uma carta enviada a Toki Jonin.2

“A vida é limitada; não devemos poupá-la” (CEND, v. I, p. 223), de acordo com essas palavras, venho me empenhando incansavelmente pelo kosen-rufu, lutando e ultrapassando todas as formas de dificuldades imagináveis para concretizar os nobres ideais do meu mestre.

Trata-se da declaração veemente de Daishonin de que nem as mais implacáveis tempestades de adversidades podem extinguir a chama do grande juramento do Buda — ou melhor, a expressão de sua determinação inabalável de que assim fosse.

Daishonin redigiu essa carta logo depois de chegar a Tsukahara, na Ilha de Sado, onde ficou exilado após a Perseguição de Tatsunokuchi.3 Nela, ele tenta transmitir a seu discípulo que, mesmo em meio àquelas circunstâncias terríveis, seu espírito de luta ardia ainda mais intensamente, e que um momento crucial para o kosen-rufu havia despontado.

Resumindo os eventos que antecederam essa carta: tendo sido sentenciado ao exílio, Daishonin partiu de Echi, província de Sagami (atual cidade de Atsugi, Kanagawa), no dia 10 de outubro de 1271, para o porto de Teradomari, província de Echigo (atual cidade de Nagaoka, Niigata), uma viagem que durou doze dias. Ele então foi obrigado a permanecer por algum tempo aguardando ventos favoráveis para a travessia por mar até a ilha. Pôde finalmente partir no dia 28 de outubro, e chegou a Sanmai-do,4 um pequeno templo que foi seu abrigo em Tsukahara, em Sado, no dia 1º de novembro.

Daishonin escreveu esta carta no dia 23 de novembro — que incide no dia 26 de dezembro no calendário atual, em pleno inverno. Ele retrata as rigorosas condições climáticas de frio intenso do norte do Japão: “No entanto, nos dois últimos meses, desde que cheguei a este local, no norte de Sado, os ventos cortantes sopram sem parar e, embora tenha havido alguns momentos em que a geada e a neve cessaram, não vi a luz do Sol uma única vez aqui. Creio que estou vivenciando os oito infernos gelados”5 (Ibidem, p. 222).

Ele [Daishonin] estava sofrendo terrivelmente em virtude do frio cortante. Além disso, tratado como criminoso, não lhe forneciam alimento suficiente. Aos olhos dos habitantes locais, que não eram capazes de distinguir “o ensinamento budista correto do incorreto” (Ibidem), Daishonin era meramente um sacerdote perverso que criticava as escolas budistas. De fato, ele vivia sob constante risco de perder a vida nas mãos de prováveis assassinos.

No fim desta carta, Daishonin expressa: “É impossível descrever tais assuntos por escrito” (Ibidem, p. 223). Por isso, ele pede a seus discípulos que busquem informações mais detalhadas sobre a situação com os jovens sacerdotes que o acompanharam na viagem até Sado e que agora ele os mandava de volta.6 Podemos pressupor que as condições eram tão severas que Daishonin se viu obrigado a fazê-los retornarem.

Entretanto, a mente de Daishonin se mantinha serena pela imensa alegria de dedicar a vida à Lei Mística.

Para permitir que seus discípulos entendessem seu estado mental, Daishonin recomenda-lhes que ponderem profundamente o que ele escrevera numa correspondência anterior, Carta de Teradomari,7 redigida pouco antes de sua travessia para Sado. Nela, ele declara que é o devoto do Sutra do Lótus e, com certeza, receberia a proteção de incontáveis bodisatvas de todo o universo (cf. CEND, v. I, p. 218).

Daishonin considerava que adversidades eram uma honra para os praticantes do Sutra do Lótus. Ele se esforçou para desenvolver discípulos genuínos por meio do exemplo de sua própria conduta, convocando-os a devotar a vida à missão de concretizar do kosen-rufu.

A Lei secreta – a única grande razão do advento dos budas

Nesta carta, Daishonin examina a história do budismo e escreve que grandes mestres budistas dos Primeiros e Médios Dias da Lei como Nagarjuna, Vasubandhu, Tiantai e Dengyo8 expuseram e propagaram o ensinamento correto do budismo que se adequava às respectivas épocas. Nela o buda também explica que eles não ensinaram sobre “A Lei secreta – a única grande razão do advento dos budas [neste mundo]” (Ibidem, p. 222), o Nam-myoho-renge­-kyo, a Lei fundamental por meio da qual todas as pessoas podem atingir a iluminação.

Daishonin prossegue, afirmando: “A Lei secreta – a única grande razão do advento dos budas – será propagada pela primeira vez nesta nação. Quem, a não ser Daishonin, poderia cumprir essa tarefa?” (Ibidem). Trata-se de uma sublime afirmação de que ele é a pessoa que está propagando a grande Lei que poderá livrar todas as pessoas dos Últimos Dias da Lei do sofrimento em seu nível mais fundamental. Embora pudesse estar confinado pelas leis do país, espiritualmente era livre, de fato, um rei leão, um grande campeão da vida.

Como Buda dos Últimos Dias da Lei, Daishonin levantou-se só e iniciou a propagação do ensinamento correto, abrindo o caminho para que a Lei fosse amplamente aceita e praticada no futuro. O kosen-rufu se desenrolou exatamente como ele enunciou posteriormente em Saldar as Dívidas de Gratidão: “Se a compaixão de Nichiren for realmente grande e abrangente, o Nam-myoho-renge­-kyo se propagará por dez mil anos e mais, por toda a eternidade” (CEND, v. I, p. 770).

Quando os discípulos perceberam o majestoso estado de vida de Daishonin, qualquer ansiedade e incerteza que pudessem guardar no coração deve ter se dissipado e substituído pelo radiante sol da esperança do kosen-rufu.

Quando nos dedicamos ao grande juramento pelo kosen-rufu, nossa vida se expande ilimitadamente. Atingimos um estado de vida amplo, que nos permite avaliar claramente os problemas e as dificuldades que estamos enfrentando e vencer.

Por essa razão, Daishonin escreve na carta: “Não deve, de forma alguma, lamentar” (Ibidem, p. 223). Essas palavras de encorajamento se destinam a todos os seus discípulos, que, na época, enfrentavam perseguições tão ferozes a ponto de, posteriormente, ele escrever [em Resposta a Niiama] “entre as 999 pessoas de cada 1.000 que abandonaram a fé” (Ibidem, p. 490).

Prosseguindo, ele afirma em Aspiração à Terra do Buda: “Nos capítulos ‘Encorajamento à Devoção’ e ‘Bodisatva Jamais Desprezar’ consta [que o devoto do Sutra do Lótus enfrentará perseguições]” (Ibidem, p. 223). Sua inferência aqui é que, para um genuíno devoto, ou praticante, é um motivo de honra enfrentar a perseguição dos três poderosos inimigos (leigos arrogantes, sacerdotes arrogantes e falsos sábios arrogantes) e ser atacado com bastões e pedras (como o bodisatva Jamais Desprezar), conforme o que se descreve, respectivamente, nos capítulos “Encorajamento à Devoção” (13º) e “Jamais Desprezar” (20º) do Sutra do Lótus.

Desse modo, também estava louvando seus discípulos, que vivenciavam as mesmas atribulações e perseguições que ele, sugerindo que também eram devotos do Sutra do Lótus.

Haverá ocasiões em que nos depararemos com críticas ou ataques injustos por praticarmos o Budismo de Nichiren Daishonin, mas todas as adversidades que experimentamos em prol do kosen-rufu são provas de que estamos conduzindo a nossa vida de acordo com o Sutra do Lótus, ou seja, de que estamos seguindo o grandioso caminho para atingir o estado de buda.

As batalhas com as quais nos defrontamos na vida real fazem parte de nossa prática budista para o nosso desenvolvimento espiritual, possibilitando que realizemos nossa revolução humana e alcancemos o estado de buda. Se orarmos com esse espírito e convicção, a coragem de que necessitamos para enfrentar todos esses desafios emanará de dentro de nós. Isto, em si, é o significado de manifestar a condição de vida do estado de buda.

A dedicação ao kosen-rufu é o modo de vida mais nobre que existe como ser humano.

Publicadas em julho de 2015 na revista Daibyakurenge.

NOTAS:

1. Traduzido do japonês. Toda, Josei. Toda Josei Zenshu [Coletânea das Obras de Josei Toda]. Tóquio: Seikyo Shimbunsha, v. 3, p. 434, 1983.

2. Toki Jonin (1216–1299): Seguidor leigo de Daishonin. Morava em Wakamiya, no distrito Katsushika, na província de Shimosa (atualmente, parte da província de Chiba) e era um influente samurai a serviço do senhor feudal de Chiba, comandante militar da província. Ele se converteu ao ensinamento de Daishonin aproximadamente em 1254, ano subsequente ao qual Nichiren Daishonin estabeleceu o ensinamento do Nam-myoho-renge-kyo

no templo Seicho-ji, em Awa. Também conhecido como o sacerdote leigo Toki, ele foi destinatário de muitos escritos de Daishonin, entre os quais O Objeto de Devoção para Observar a Mente, a maior parte preservada com esmero.

3. Perseguição de Tatsunokuchi: Fracassada tentativa orquestrada por personalidades importantes do governo de decapitar Daishonin sob o manto da noite na praia de Tatsunokuchi, nas cercanias de Kamakura, no dia 12 de setembro de 1271.

4. Em As Ações do Devoto do Sutra do Lótus, Daishonin descreve Sanmai-do: “Era um único cômodo sustentado por quatro estacas, num terreno onde abandonavam cadáveres, semelhante a Rendaino, em Quioto. Nesse lugar, não havia sequer uma estátua do Buda. As tábuas do telhado eram muito separadas umas das outras, e as paredes, cheias de buracos. A neve se empilhava dentro da cabana e nunca derretia. Ali passei meus dias, cobrindo-me com um manto feito de palha e me deitando sobre uma pele de animal. À noite, chovia granizo, nevava e relampejava sem parar. Mesmo durante o dia, o sol raramente brilhava. Era um lugar desolador de se viver” (WND, v. I, p. 769).

5. Oito infernos gelados: Infernos que, segundo afirmava a antiga cosmologia indiana, situavam-se abaixo do continente de Jambudvipa, próximos aos oito infernos escaldantes. Aqueles que residem lá são atormentados pelo frio insuportável.

6. Daishonin escreve: “Estou enviando de volta alguns dos jovens sacerdotes. Eles poderão lhe contar sobre esta província e sobre as circunstâncias em que estou vivendo” (CEND, v. I, p.223).

7. Carta de Teradomari foi endereçada a Toki Jonin e escrita em 22 de outubro de 1271, enquanto Daishonin se encontrava em Teradomari, na província de Echigo, a caminho de seu local de exílio em Sado. Citando passagens dos Sutras do Lótus e do Nirvana, Daishonin descreve como Shakyamuni foi atacado e perseguido por não budistas durante sua existência, e traça um paralelo entre aqueles não budistas e os sacerdotes budistas de sua época, bem como entre Shakyamuni e ele próprio.

8. Nagarjuna foi um filósofo budista do Mahayana, que viveu na Índia entre os séculos 2 e 3. Seus textos exerceram forte influência sobre o budismo na China e no Japão. Vasubandhu foi outro grande filósofo budista indiano, atuante no século 4. Tiantai (538–597), também conhecido como Chih-i, propagou o Sutra do Lótus na China e estabeleceu a doutrina “três mil mundos num único momento da vida”. Suas preleções foram compiladas em obras como Profundo Significado do Sutra do Lótus, Palavras e Frases do Sutra do Lótus e Grande Concentração e Discernimento. Dengyo (767–822), também conhecido como Saicho, foi o fundador da escola Tendai (Tiantai) no Japão. Ele viajou para a China, onde dominou os ensinamentos de Tiantai.


Budismo do Sol

Escrito 3: Aspiração à Terra do Buda

Brasil Seikyo, Edição 2329, 25/06/2016 / Encontro com o Mestre

Kosen-rufu e vida — dedicação a um nobre ideal

Trecho do Gosho

Como deve ter percebido nesses ensinamentos, [o advento da grande Lei] já está diante de nossos olhos. Nos mais de dois mil e duzentos anos desde a morte do Buda, na Índia, na China, no Japão, e em todo o Jambudvipa [o grande mestre Tiantai declarou]: “Vasubandhu e Nagarjuna perceberam claramente a verdade em seu coração, mas não a transmitiram aos outros. Em vez disso, eles empregaram os ensinamentos do Mahayana provisório, que eram adequados à época”. Tiantai e Dengyo fizeram comentários gerais sobre isso; porém, deixaram a propagação para o futuro. A Lei secreta – a única grande razão do advento dos budas – será propagada pela primeira vez nesta nação. Quem, a não ser Nichiren, poderia cumprir essa tarefa? (...) O senhor não deve, de forma alguma, lamentar meu exílio. Nos capítulos “Encorajamento à Devoção” e “Bodisatva Jamais Desprezar” consta [que o devoto do Sutra do Lótus enfrentará perseguições]. A vida é limitada; não devemos poupá-la. O que, afinal, devemos aspirar é à terra do buda. (CEND, v. I, p. 222-223)

A importância de devotar a vida à Lei

No fim desta carta, dirigindo-se a seus discípulos que lutavam bravamente em meio a grandes adversidades, Daishonin lhes assegura: “A vida é limitada; não devemos poupá-la. O que, afinal, devemos aspirar é à terra do buda” (CEND, v. I, p. 223).

Tanto ele como seus discípulos enfrentavam uma situação de risco de perder a vida, então Daishonin clama a eles que vivam uma existência dedicada ao budismo e aspirem à terra eterna do buda [no contexto, indica o estado de buda] sem poupar a vida. Tais palavras não devem, portanto, ser interpretadas com o sentido de que Daishonin estivesse aconselhando seus discípulos a desperdiçar a vida deles.

Todos que nascem um dia têm de morrer. A que dedicaremos o limitado tempo de que dispomos neste mundo? Em Carta de Sado, Daishonin escreve: “[Os seres humanos] geralmente se sacrificam por questões superficiais e seculares; contudo, raramente o fazem pelos preciosos ensinamentos do Buda. Assim, é natural que não atinjam o estado de buda” (Ibidem, p. 317).

Pelo fato de nossa vida ser infinitamente preciosa, a maneira como vivemos possui extrema relevância.

A hora da morte chega para todos. Quando enfrentamos essa solene realidade, percebemos a importância de tornar cada momento de nossa vida o mais significativo e valioso possível.

O tesouro do coração brilha eternamente

Daishonin expressa [em Os Três Tipos de Tesouro]: “É muito raro nascer como ser humano” e “Viver como ser humano é difícil” (WND, v. I, p. 851). Precisamente por essa razão, ele nos ensina, por meio da metáfora dos três tipos de tesouros, a viver da maneira mais proveitosa e relevante possível. Ele explica que enquanto os tesouros do cofre (riqueza material) e do corpo (saúde e habilidades práticas) duram apenas uma única existência, o tesouro do coração é a fonte de riqueza genuína e indestrutível. Para agregarmos um significado eterno à nossa vida, é importante acumularmos o tesouro do coração. Conforme Daishonin nos indica: “O tesouro do coração é o mais valioso de todos” (Ibidem).1

Descobrindo o valor verdadeiro e duradouro, que está vinculado ao “eterno”, devemos viver nossa presente existência à plenitude. E a religião desempenha papel crucial para se desenvolver essa perspectiva.

No contexto da eternidade, uma simples existência humana pode representar apenas um momento efêmero, mas uma filosofia religiosa genuína nos permite criar valores eternos nesse simples instante.

“No fim, ninguém pode escapar da morte” (WND, v. I, p. 1003), afirma Daishonin [em O Portal do Dragão]. Essa é a realidade diante de todos nós. Assim sendo, por que não devotar nossa vida a criar valor ilimitadamente nos dedicando ao grande juramento pelo kosen-rufu e para assim fazermos parte de algo maior, como uma gota de orvalho que se junta ao oceano ou uma partícula de poeira que se funde com a terra?

Enfrentar os maus amigos pelo povo

Na carta O Problema a Ser Ponderado Dia e Noite enviada a Toki Jonin, Daishonin escreve a famosa expressão “se arrependerem durante os próximos dez mil anos”. Essas palavras fazem parte de um trecho, descrito a seguir, que o presidente fundador da Soka Gakkai, Tsunesaburo Makiguchi, sublinhou em seu exemplar dos escritos de Daishonin: “(...) Isso demonstra, meus seguidores, que seria melhor reduzirem seu sono durante a noite e suas diversões durante o dia para ponderarem sobre isso! Não passem a vida em vão para depois se arrependerem durante os próximos dez mil anos” (CEND, v. I, p. 650).

Daishonin brada: “Meus seguidores!”. E o que seria esse pedido para todos os seus discípulos “ponderarem reduzindo as horas de sono”? Sua mensagem, em suma, é para não se deixarem enganar pela aparência externa dos “sacerdotes de alta posição que, embora mantenham os preceitos, alimentam visões distorcidas” (Ibidem). Na realidade, esses sacerdotes, apesar de serem respeitados pelo público por seu comportamento aparentemente exemplar, são, de fato, corruptos e interesseiros. São “más companhias”2 ou influências negativas, que não conseguem compreender a verdade fundamental do budismo e estão, efetivamente, extraviando as pessoas.

Como exemplos concretos de “sacerdotes de alta posição que, embora mantenham os preceitos, alimentam visões distorcidas”, Daishonin cita Kobo,3 Jikaku4 e Chisho5 e os discípulos e sucessores deles. Em especial, Jikaku e Chisho, como sacerdotes priores da escola Tendai (Tiantai), no Japão [que originalmente se baseava­ no Sutra do Lótus], deveriam ter protegido os ensinamentos do fundador da escola — o grande mestre Dengyo —, os propagado e conduzido as pessoas à felicidade. Mas pouco tempo após a morte de Dengyo (em 822), eles abandonaram o ensinamento correto do budismo, desencaminharam as pessoas e fizeram com que a calúnia contra a Lei proliferasse pelo país todo.

Em contraste com essa conduta, Daishonin, seguindo a linhagem do devoto do Sutra do Lótus, Shakyamuni, Tiantai e Dengyo,6 dedicou-se, sem se poupar, para evitar que o ensinamento correto perecesse, para proteger a Lei e para saldar sua dívida de gratidão.

É possível sentir a força do rugido de leão de Nichiren Daishonin como se dissesse “se forem meus seguidores, ponderem profundamente sobre essa verdade e herdem esse coração de justiça!”.

A Soka Gakkai herdou o Budismo de Nichiren Daishonin

Se aqueles que deveriam proteger o ensinamento correto do budismo não o fizerem, ele será destruído e se perderá.

Tsunesaburo Makiguchi e Josei Toda, primeiro e segundo presidentes da Soka Gakkai, pronunciaram-se sobre o que era justo e correto no que se refere ao budismo, exatamente como Daishonin ensinou, e, em decorrência disso, foram presos pelas autoridades militaristas do Japão.

Em contrapartida, o clero da Nichiren Shoshu, temendo a perseguição do governo, cedeu, comprometendo-se a incorporar elementos do xintoísmo estatal. O Sr. Makiguchi, porém, sustentou o ensinamento e as doutrinas corretas do Budismo de Nichiren Daishonin até o fim, declarando: “O que lamento não é a ruína de uma escola, mas a destruição de um país inteiro diante de nossos olhos. Receio a tristeza terrível que isso traria a Daishonin”.

O espírito de Daishonin pulsa vibrantemente no coração dos mestres e discípulos Soka, que estão dando continuidade à disposição de proteger a Lei e à dedicação abnegada em prol do budismo.

Como mencionado na frase do escrito O Problema a Ser Ponderado Dia e Noite, “em vão”, como Daishonin adverte seus discípulos, neste contexto significa se esquecer da missão fundamental na vida e se deixar levar por questões irrelevantes, vivendo uma existência a esmo e sem um propósito.

“A vida é limitada; não devemos poupá-la”; “Não passem a vida em vão para depois se arrependerem durante os próximos dez mil anos!” — a profundidade com que acatamos essas palavras em nosso coração determina a profundidade de nossa existência.

Quando jovem, meu médico me disse que eu provavelmente não viveria para festejar meu aniversário de 30 anos. Eu tinha a clara consciência de como minha vida poderia ser limitada. Por isso, lutava com todas as minhas forças pelo kosen-rufu. Empenhava-me de corpo e alma, determinado a ser um exemplo para as gerações futuras, um discípulo autêntico em total união de espírito com meu mestre, de modo que não tivesse nenhum arrependimento, independentemente de quando a morte pudesse bater à minha porta.

Estou certo de que, por ter me devotado à minha prática budista com essa disposição, recebi o benefício de prolongar minha vida por meio da dedicação à Lei Mística. Incontáveis associados da SGI relatam alegres experiências de vitória sobre a doença e de êxito em prolongar a vida mediante a prática budista. Todos demonstraram provas de como é maravilhoso seguir de acordo com os ditos dourados de Daishonin.

Uma vida consagrada à missão de cumprir o grande juramento do kosen-rufu compartilhando compassivamente a Lei Mística com as pessoas, infalivelmente produzirá um estado de suprema alegria e contentamento.

O filósofo romano da antiguidade Marco Aurélio declarou: “Não vivas como se ainda tivesses 10 mil anos de vida. O destino está a um palmo; torne-se bom enquanto ainda possui vida e força”.7

Vivamos, portanto, este momento com a máxima plenitude. Se falharmos em agir negligenciando esforços, não deixaremos atrás de nós nada significativo. Continuemos nos esforçando vigorosamente em prol do kosen-rufu, valorizando a Lei e não poupando nenhum esforço. Se dedicarmos esta preciosa existência ao ato de compartilhar o budismo com as outras pessoas, jamais teremos motivo para “nos arrependermos durante os próximos dez mil anos” (cf. CEND, v. I, p. 650).

Naturalmente, não poupar nenhum esforço é diferente de cometer exageros. Devemos agir com sabedoria e cuidar de nossa saúde, para que possamos colocar nossa vida a serviço da propagação dos ideais do Budismo de Nichiren Daishonin. Viver mesmo um único dia a mais para que possamos contribuir para o kosen-rufu é o maior tesouro que pode existir.

Ter uma vida realmente realizada significa dar o máximo de si a cada dia em prol da inigualável Lei Mística, da felicidade das outras pessoas e pelo bem da sociedade.

Ampliando nossa rede pelo mundo

Cinquenta e cinco anos se passaram desde que sucedi ao presidente Josei Toda e passei a me empenhar como terceiro presidente da Soka Gakkai (em 3 de maio de 1960). Ao lado dos membros da organização, amigos do “tempo sem início”, espalhei no mundo as sementes da Lei Mística em prol da paz.

Bodisatvas da terra, todos abraçando o mesmo grande juramento pelo kosen-rufu, levantamo-nos um após o outro construindo a rede de felicidade e da paz da SGI, que hoje abrange 192 países e territórios.

Acalentando o sonho do kosen-rufu mundial, os pioneiros da nossa organização lutaram ao meu lado, seguindo em frente diante de incontáveis obstáculos. Hoje, esses membros expressam gratidão e satisfação por terem podido viver como integrantes da SGI e testemunhar o espetacular desenvolvimento de nosso movimento nesta existência. Eles afirmam não ter arrependimento algum e que nenhum de seus esforços foi em vão.

Entre os representantes que estiveram no Japão recentemente para participar do Curso de Aprimoramento de Primavera da SGI [em maio de 2015] havia vários filhos e filhas dos pioneiros com quem me encontrei em minha primeira viagem ao exterior. É muito gratificante saber que o juramento pelo kosen-rufu está sendo transmitido de uma geração para outra.

A vida de uma pessoa é limitada. Mas suas orações, seu juramento ou compromisso, seus esforços em prol do kosen-rufu fluem eternamente através das gerações. A boa sorte que acumulamos por meio da fé e o benefício que obtemos ensinando o budismo a outras pessoas são imperecíveis. Os esforços que efetuamos com base no grande juramento de nos dedicar ao kosen-rufu e à felicidade do próximo tornam-se fonte de infinita boa sorte e benefícios tanto para nós como para aqueles à nossa volta, com quem compartilhamos uma ligação profunda.

Uma vida nobre, experimentada com orgulho e satisfação de ter se dedicado à Lei Mística com certeza inspirará outras e iluminará o futuro. Um empreendimento ao qual devotamos toda a nossa energia e paixão continuará resplandecendo pela posteridade. Se consagrarmos nossa vida ao kosen-rufu, poderemos atingir um estado de felicidade que perdurará eternamente pelas “três existências” — passado, presente e futuro.

Nossa vida, dedicada ao kosen-rufu, é repleta da alegria proveniente do estado de buda, o supremo senso de orgulho de ser bodisatvas da terra e tomar parte na gloriosa façanha do kosen-rufu mundial. Ainda estamos nos estágios iniciais do magnífico empreendimento que prosseguirá pela eternidade. Nossa odisseia da esperança apenas começou. Contemplar o grandioso desenvolvimento que sucederá daqui a cinquenta ou cem anos é uma perspectiva emocionante.

Por essa razão, gostaria de dizer aos jovens: “Vençam os desafios de sua vida diária com coragem e perseverança. A maneira de fazer isso é se levantarem e agirem para cumprir sua missão de propagar a Lei Mística no local onde vocês se encontram neste exato instante”.

Uma existência
vitoriosa dedicada
ao grande juramento
pelo kosen-rufu

Quando despertamos para nossa missão como bodisatvas da terra, conseguimos desenvolver maior profundidade e força, somos capazes de disseminar livremente a compreensão sobre o budismo e produzir valores perenes.

Como membros da Divisão dos Jovens, é importante firmar o juramento de “o kosen-rufu é minha vida”, e, então seguir adiante em busca de seus ideais. Desse modo, poderão desfrutar uma existência significativa, livre de quaisquer arrependimentos.

O juramento selado na juventude será a luz interior que os guiará enquanto viverem. Portanto, jamais, em circunstância alguma, devem perder essa luz.

Concluindo esta explanação, gostaria de clamar aos jovens e a todos que se empenham ao lado deles: “Prossigamos avançando em luta conjunta, realizando a mais valiosa jornada da vida e do kosen-rufu, e tenhamos uma existência triunfante, dedicada à concretização de nobres ideais!”.

Publicadas em julho de 2015 na revista Daibyakurenge.

NOTAS:

1. Em Os Três Tipos de Tesouro, Daishonin escreve: “O tesouro do corpo é mais valioso que aquele guardado no cofre; e o tesouro acumulado no coração é muito mais valioso que o tesouro do corpo. A partir do momento em que o senhor ler esta carta, esforce-se para acumular o tesouro do coração” (WND, v. I, p. 851).

2. Más companhias: Também conhecidas como maus amigos ou maus mestres. Alguém que leva outras pessoas a cair nos maus caminhos, desviando-as em relação ao budismo. Má companhia ilude os demais com ensinamentos falsos para impedir que sigam a prática budista correta.

3. Kobo (jap. Kb; 774–835): Também conhecido como Kukai ou grande mestre Kobo. Fundador da escola japonesa Palavra Verdadeira. Em 804, viajou à China, onde estudou as doutrinas e os rituais dos ensinamentos esotéricos. Após retornar ao Japão, em 806, Kobo dedicou-se à propagação dos ensinamentos esotéricos da Palavra Verdadeira, e construiu vários templos no Monte Koya.

4. Jikaku (jap.; 794–864): Também conhecido como Ennin ou grande mestre Jikaku. Terceiro prior do templo Enryaku-ji. Em 838, viajou à China, onde estudou tanto os ensinamentos de Tiantai como o budismo esotérico. Após retornar ao Japão, assumiu a liderança da escola Tendai e, mais tarde, adicionou elementos esotéricos à doutrina.

5. Chisho (jap. Chish; 814–891) Também conhecido como Enchin ou “grande mestre Chisho”. O quinto prior do Enryaku-ji, principal templo da escola Tendai no Monte Hiei. Em 853, viajou para a China da dinastia Tang, onde estudou as doutrinas de Tiantai e os ensinamentos esotéricos. Quando retornou ao Japão, uniu ambas as doutrinas. Ele também construiu um salão no templo Onjo-ji para a realização da cerimônia esotérica de unção.

6. Em O Devoto do Sutra do Lótus Enfrentará Perseguições, Daishonin escreve: “Durante a época do Buda e nos dois mil anos dos Primeiros e Médios Dias da Lei que se seguiram após a morte dele, houve somente três devotos do Sutra do Lótus: o próprio Buda, Tiantai e Dengyo” (CEND, v. I, p. 468).

7. AURÉLIO, Marco. Tradução de Maxwell Staniforth. Londres: Penguin Books, 1964, p. 66-67.

Explanação 2 - Carta para Shimoyama

Budismo do Sol
Iluminando o mundo

Brasil Seikyo, Edição 2324, 21/05/2016 / Encontro com o Mestre

Escrito 2: Carta para Shimoyama

A religião existe para a felicidade das pessoas

Introdução

Junho é o mês do nascimento do presidente fundador da Soka Gakkai, Tsunesaburo Makiguchi. E também este é o ano [2015] do 85º aniversário da publicação de sua teoria pedagógica da criação de valor [que assinala a fundação da Soka Gakkai].

Proeminente educador, o professor Makiguchi devotou a vida à educação humanista, com o foco na felicidade das crianças e na consolidação de uma sociedade que realmente valorize a educação. O espírito budista de prezar cada indivíduo e de acreditar no potencial positivo de todas as pessoas compôs a base de seus esforços.

O ser humano é o
ponto de partida, e
a felicidade, o objetivo

Nas escolas Soka e Universidade Soka — a cristalização do grande desejo do professor Makiguchi —, estabeleceu-se a tradição de se valorizar o propósito da educação. Tenho certeza de que tanto Makiguchi como seu discípulo, o segundo presidente da Soka Gakkai, Josei Toda, ficariam encantados em ver como as instituições de “criação de valor” estão se desenvolvendo a cada ano.

Em todos os empreendimentos, o propósito é uma questão muito importante. Aqueles que o possuem como ponto de partida são fortes. Eles conseguem manter seu curso, mesmo quando se deparam com os problemas mais complexos.

Shakyamuni, o fundador do budismo, e Nichiren Daishonin, que surgiu nos Últimos Dias da Lei, também travaram batalhas contínuas em busca do propósito da religião.

Em última análise, a religião deve existir em prol da paz e da felicidade de todos os seres humanos. Essa também é a essência do Sutra do Lótus e dos escritos de Nichiren Daishonin, os quais podem ser considerados escritos para toda a humanidade. A filosofia que brada a suprema dignidade e valor de todas as pessoas é o grande tesouro da humanidade.

Os seres humanos sempre devem ser o ponto inicial, e sua felicidade, o objetivo.

O professor Makiguchi, educador que buscava a felicidade das crianças, encontrou-se com o Budismo Nichiren aos 57 anos. A partir desse momento, levantou-se com o grande juramento pela felicidade de cada pessoa, travando uma luta incansável como praticante do Sutra do Lótus.

A felicidade de todas as pessoas, ou seja, o estabelecimento de uma religião em prol do bem-estar dos seres humanos, é uma linhagem desde Shakyamuni, Sutra do Lótus, Nichiren Daishonin, Makiguchi sensei até a Soka Gakkai atualmente. Essa é também a linhagem da revolução religiosa — o combate à natureza demoníaca que causa o sofrimento humano.

Nesta parte, estudando o escrito de Nichiren Daishonin Carta para Shimoyama, ratifiquemos essa relação, a linhagem do humanismo budista que pulsa na Soka Gakkai.

Escrito 2: Carta para Shimoyama

Esses grandes eruditos [como Maitreya, Manjushri, Ashvaghosha­, Nagarjuna, Asanga e Vasubandhu do segundo período de quinhentos anos dos Primeiros Dias da Lei] não somente compreendiam o significado profundo do Sutra do Lótus, mas também sabiam que a época da propagação do Sutra do Lótus ainda não havia chegado. E como ainda não tinham recebido a ordem do Buda para expor essas doutrinas grandiosas, apesar de as preservarem em sua mente, não permitiam que sua boca as proferissem. (...)

Com o início dos mil anos dos Médios Dias da Lei, o budismo gradativamente se propagou da Índia para a China e o Japão. O Buda, o Mundialmente Reverenciado, confiara expressamente a primeira parte do Sutra do Lótus, os catorze capítulos que compõem o ensinamento teórico, aos bodisatvas do ensinamento teórico, como o bodisatva Rei dos Remédios, e aos bodisatvas de mundos diferentes deste nosso. Esses atos foram uma espécie de prelúdio do surgimento dos grandes bodisatvas que emergem da terra no início dos Últimos Dias da Lei para ensinar todos os seres vivos deste continente de Jambudvipa [o mundo inteiro] a recitar os cinco ideogramas do Nam-myoho-renge-kyo, o âmago do capítulo “A Extensão da Vida” do ensinamento essencial.

Os designados para propagar o ensinamento teórico eram pessoas como Nanyue, Tiantai, Miaole e Dengyo.

Agora, o mundo entrou na era em que o bodisatva Práticas Superiores e os outros de seu grupo estão destinados a realizar seu advento. Até mesmo eu, com meus olhos incultos, percebo os sinais de que isto está prestes a acontecer. (WND, v. II, p. 687-688)

O Sutra do Lótus é o ensinamento para os Últimos Dias da Lei

Trecho 1 do Gosho

Esses grandes eruditos [como Maitreya, Manjushri, Ashvaghosha, Nagarjuna, Asanga e Vasubandhu do segundo período de quinhentos anos dos Primeiros Dias da Lei] não somente compreendiam o significado profundo do Sutra do Lótus, mas também sabiam que a época da propagação do Sutra do Lótus ainda não havia chegado. E como ainda não tinham recebido a ordem do Buda para expor essas doutrinas grandiosas, apesar de as preservarem em sua mente, não permitiam que sua boca as proferissem. (WND, v. II, p. 687-688)

Nichiren Daishonin redigiu a presente carta em nome de seu discípulo Inaba-bo Nichiei em junho de 1277, e a endereçou a Shimoyama Hyogo Goro Mitsumoto, administrador do distrito de Shimoyama [próximo ao Monte Minobu], na província de Kai (atual província de Yamanashi).

Na época, o Japão enfrentava a ameaça iminente de um segundo ataque do exército mongol. Num período tenso e incerto como aquele, Daishonin enfatizou reiteradamente a importância de se despertar para o correto ensinamento do budismo.

Nichiei, sacerdote budista do templo Heisen-ji [o templo da família Shimoyama no distrito de Shimoyama], tornou-se discípulo de Daishonin por meio dos esforços de propagação de Nikko Shonin,1 e [em vez de recitar o Sutra Amida do ensinamento Nembu­tsu como fizera anteriormente] começou a recitar a parte em verso do capítulo “A Extensão da Vida” (16º) do Sutra do Lótus. Isso enfureceu Shimoyama Mitsumoto, patrono do templo e adepto fervoroso da Nembutsu, que expulsou Nichiei de Heisen-ji. Daishonin redigiu esta carta como uma petição para Nichiei apresentar ao administrador. Afirma-se que, em decorrência do esclarecimento prestado, Shimoyama Mitsumoto aceitou os ensinamentos de Daishonin, assim como o restante de sua família.

Quase no fim desta carta, Daishonin descreve-se como “Nichiren, devoto do Sutra do Lótus, mais importante que Shakyamuni, o senhor dos ensinamentos” (WND, v. II, p. 710). Isso representa uma das afirmações mais significativas da vida de Daishonin e é a razão pela qual a Carta para Shimoyama consta entre seus dez principais escritos.2 Nem é necessário dizer que ninguém reverenciava Shakyamuni mais altamente do que Daishonin. Entretanto, levando-se em conta o desafio de propagar o Sutra do Lótus na era posterior à a morte do Buda, o devoto do Sutra do Lótus possuía extrema importância.

Embora este escrito tenha o formato de um relato de Nichiei sobre uma preleção feita por Daishonin em sua residência em Minobu, Daishonin na verdade toma emprestada a voz de Nichiei para expor o significado essencial de se propagar o Sutra do Lótus nos Últimos Dias da Lei.

Nesta carta, Daishonin retrata a história da disseminação do budismo nos Primeiros, Médios e Últimos Dias da Lei, e segue confirmando a excelência do Sutra do Lótus. Além disso, apresentando provas documentais, teóricas e reais, demonstra claramente que, nos Últimos Dias — na condição de alguém que leu o Sutra do Lótus com a própria vida, enfrentando as várias perseguições preditas nele — sua presença tem importância vital muito mais que a de Shakyamuni.

Propagação nos Últimos Dias da Lei — missão dos bodisatvas da terra

Os trechos da Carta para Shimoyama que escolhi como tema nesta parte discutem a propagação do budismo durante os Primeiros, Médios e Últimos Dias da Lei e o surgimento do bodisatva Práticas Superiores [o líder dos bodisatvas da terra].

Para especificar em que ordem seus ensinamentos deveriam ser propagados depois de sua morte, Shakyamuni estabeleceu os três períodos — Primeiros, Médios e Últimos Dias da Lei — e identificou quais ensinamentos deveriam ser propagados e por quem em cada período.

Portanto, na metade inicial dos mil anos dos Primeiros Dias da Lei, os ouvintes da voz Mahakashyapa, Ananda e outros propagaram os ensinamentos Hinayana, ao passo que na segunda metade daquele período de mil anos, Ashvaghosha, Nagarjuna e outros grandes bodisatvas difundiram os ensinamentos Mahayana provisórios. Esses eminentes eruditos budistas de épocas posteriores efetuaram esse trabalho empregando os sutras Mahayana para refutar os sutras Hinayana. Embora possam ter mencionado o Sutra do Lótus em seus tratados filosóficos, mantiveram no coração e não falaram diretamente sobre o ensinamento dos “três mil mundos num único momento da vida”3 — a profunda doutrina exposta no Sutra do Lótus e a verdadeira essência do ensinamento do Buda.

Por que esses grandes eruditos não propagaram o Sutra do Lótus? Nesta carta, Daishonin indica duas grandes razões: (1) Eles “sabiam que a época da propagação do Sutra do Lótus ainda não havia chegado”; e (2) Eles “não tinham recebido a ordem do Buda para expor essas doutrinas grandiosas” (WND, v. II, p. 687).

Em primeiro lugar, não era o tempo propício para que propagassem o Sutra do Lótus, pois este ensinamento fora exposto basicamente para aqueles que vivem nos Últimos Dias da Lei. Nam-myoho-renge-kyo, o âmago do Sutra do Lótus, é o grande ensinamento que habilita todos os seres vivos a atingir a iluminação, até mesmo aqueles aos quais os ensinamentos anteriores do Buda negavam tal possibilidade.

Em segundo lugar, esses bodisatvas não receberam do Buda a instrução para propagar o Sutra do Lótus, pois propagar esse grande ensinamento na era maléfica posterior à sua morte significaria enfrentar dura oposição e perseguição [que eles não conseguiriam suportar]. Essa tarefa foi confiada somente aos verdadeiros discípulos de Shakyamuni do tempo sem início, os bodisatvas da terra.4

Há dois pontos importantes a se observar aqui. Primeiro, o Sutra do Lótus é o escrito para todos os seres vivos da era maléfica dos Últimos Dias da Lei atingirem a iluminação — ou, simplificando, o ensinamento que possibilita aqueles que mais estão sofrendo se tornem felizes. Segundo, é fundamental que não se perca de vista quem possui a missão de propagar o Sutra do Lótus.

Notas

1. Nikko Shonin (1246–1333): discípulo direto e sucessor de Nichiren Daishonin, além de ser o único dos seis sacerdotes seniores que se manteve fiel ao espírito do mestre. Ele se tornou discípulo de Daishonin ainda bem jovem, servindo-o devotadamente e o acompanhando até mesmo no exílio à Ilha de Sado. Quando Daishonin se retirou para o Monte Minobu, Nikko canalizou suas energias nas atividades de propagação na província de Suruga (atual província de Shizuoka), e regiões adjacentes, como a província de Kai (atual província de Yamanashi). Após o falecimento de Daishonin, os outros cinco sacerdotes seniores começaram a se distanciar gradativamente dos ensinamentos de seu mestre. Por essa razão, Nikko decidiu se separar deles. Estabeleceu-se no distrito Fuji em Suruga, onde dedicou o resto de sua vida a proteger e propagar o ensinamento de Daishonin e a instruir e desenvolver os discípulos.

2. Dez principais escritos: tratados formulados por Nichiren Daishonin e posteriormente classificados por Nikko Shonin como seus escritos mais importantes. Em ordem cronológica de elaboração, são: (1) A Recitação do Daimoku do Sutra do Lótus, (2) Estabelecer o Ensinamento Correto para a Pacificação da Terra, (3) Abertura dos Olhos, (4) O Objeto de Devoção para Observar a Mente, (5) A Escolha da Essência do Sutra do Lótus, (6) A Seleção do Tempo, (7) Saldar as Dívidas de Gratidão, (8) Os Quatro Estágios da Fé e os Cinco Estágios da Prática, (9) Carta para Shimoyama, e (10) Perguntas e Respostas sobre o Objeto de Devoção.

3. “Três mil mundos num único momento da vida” (ichinen sanzen, em japonês): sistema filosófico estabelecido por Tiantai da China com base no Sutra do Lótus. Os “três mil mundos” indicam os vários aspectos e fases que a vida assume a cada momento. A cada instante, a vida manifesta um dos dez mundos. Cada um desses mundos possui o potencial para todos os dez dentro de si, perfazendo cem possíveis mundos. Cada um desses cem mundos possui os dez fatores e opera dentro de cada um dos três domínios da existência, totalizando, assim, três mil mundos. Em outras palavras, todos os fenômenos estão contidos dentro de um único momento de vida, e um único momento de vida permeia os três mil mundos da existência, ou a totalidade do mundo dos fenômenos.

4. Bodisatvas da terra: enorme multidão de bodisatvas que emergem da terra, a quem o buda Shakyamuni confia a propagação da Lei Mística, ou a essência do Sutra do Lótus nos Últimos Dias da Lei. São descritos no capítulo “Emergindo da Terra” (15º) do Sutra do Lótus, o primeiro capítulo do ensinamento essencial do sutra (os últimos 14 capítulos). Nesse capítulo, incontáveis bodisatvas de outros mundos pedem permissão para propagar o sutra no mundo saha depois da morte do Buda, mas Shakyamuni rejeita a oferta, dizendo que já existem bodisatvas que realizarão essa tarefa no mundo saha. Nesse momento, a terra treme e se abre, e de dentro dela surge uma multidão de bodisatvas numa quantidade equivalente aos grãos de areia de sessenta mil rios Ganges, cada qual respectivamente acompanhado por um vasto séquito. No capítulo “Os Poderes Sobrenaturais” (21º), Shakyamuni transfere a essência do Sutra do Lótus aos bodisatvas da terra, liderados pelo bodisatva Práticas Superiores, confiando-lhes a missão de propagá-la nos Últimos Dias da Lei.



Budismo do Sol
Iluminando o mundo

Brasil Seikyo, Edição 2325, 28/05/2016 / Encontro com o Mestre

Escrito 2: Carta para Shimoyama

A religião existe para a felicidade das pessoas

Uma era maléfica de calúnia a Lei

Trecho 2 do Gosho

Com o início dos mil anos dos Médios Dias da Lei, o budismo gradativamente se propagou da Índia para a China e o Japão. O Buda, o Mundialmente Reverenciado, confiara expressamente a primeira parte do Sutra do Lótus, os catorze capítulos que compõem o ensinamento teórico, aos bodisatvas do ensinamento teórico, como o bodisatva Rei dos Remédios, e aos bodisatvas de mundos diferentes deste nosso. Esses atos foram uma espécie de prelúdio do surgimento dos grandes bodisatvas que emergem da terra no início dos Últimos Dias da Lei para ensinar todos os seres vivos deste continente de Jambudvipa [o mundo inteiro] a recitar os cinco ideogramas do Nam-myoho-renge-kyo, o âmago do capítulo “A Extensão da Vida” do ensinamento essencial.

Os designados para propagar o ensinamento teórico eram pessoas como Nanyue, Tiantai, Miaole e Dengyo. Agora, o mundo entrou na era em que o bodisatva Práticas Superiores e os outros de seu grupo estão destinados a realizar seu advento. Até mesmo eu, com meus olhos incultos, percebo os sinais de que isto está prestes a acontecer. (WND, v. II, p. 688)

Embora as doutrinas não fossem tão profundas como as contidas no Sutra do Lótus, os ensinamentos provisórios anteriores ao Sutra do Lótus que foram propagados durante os mil anos dos Primeiros Dias da Lei ainda beneficiavam as pessoas. Do mesmo modo, nos mil anos dos Médios Dias da Lei, o ensinamento teórico (primeira metade) do Sutra do Lótus era suficiente para aquela época. Considerava-se que os grandes mestres Tiantai e Dengyo, que surgiram, respectivamente, na China e no Japão, cumpriam as funções de bodisatvas do ensinamento teórico como o bodisatva Rei dos Remédios citados na passagem ao lado. Com base no Sutra do Lótus, Tiantai expôs o princípio dos “três mil mundos num único momento da vida” e estabeleceu uma prática para a pessoa ativar a sabedoria do buda e atingir a iluminação. E Dengyo disseminou os ensinamentos e a prática de Tiantai no Japão. Daishonin descreve esses fatos como um “prelúdio” para o surgimento dos bodisatvas da terra nos Últimos Dias da Lei para ensinar às pessoas o Nam-myoho-renge-kyo, “âmago do capítulo ‘A Extensão da Vida’ do ensinamento essencial” (WND, v. II, p. 688).

Em contraste com os Primeiros e Médios Dias da Lei, os Últimos Dias são o período para o bodisatva Práticas Superiores surgir e propagar o ensinamento essencial (segunda metade) do Sutra do Lótus, e eram evidentes os sinais indicando isso, como afirma Daishonin.

Ele estava se referindo ao fato de que a imensa desordem no mundo do budismo, que caracteriza esse período, já estava em curso. As escolas budistas estabelecidas no Japão haviam perdido de vista completamente o verdadeiro propósito dos ensinamentos do Buda, tinham se esquecido do bem-estar do povo e se voltaram para disputas e rivalidades que efetivamente indicavam “uma era de conflitos e disputas”.1

Os sacerdotes das várias escolas budistas tornaram-se confusos acerca da profundidade e eficácia relativas dos diferentes sutras, e, esquecendo-se da intenção original do Buda, estabeleceram novas escolas conforme seus próprios planos ou inclinações, sem levar em conta a época e a capacidade das pessoas de acreditar e aceitar o budismo. Como se não bastasse, denigriram o Sutra do Lótus, o ensinamento da iluminação universal, levando a Lei pura a se tornar obscura e se perder.2

Mas este é o período no qual a grande Lei pura deve florescer e o bodisatva Práticas Superiores, surgir.

Quem, então, está atuando hoje como o bodisatva Práticas Superiores que prega esta grande Lei pura e conduz todos os seres dos Últimos Dias da Lei a atingir a iluminação? Isso está ligado diretamente à questão sobre quem é o verdadeiro devoto, o praticante genuíno, do Sutra do Lótus nos Últimos Dias da Lei.

Propagar a Lei suportando as dificuldades na era de calúnias

Como se observou anteriormente, o Sutra do Lótus é o ensinamento que possibilita a iluminação de todas as pessoas nos Últimos Dias da Lei. Isso significa que o devoto do Sutra do Lótus deve ser alguém que possui a coragem de se levantar sozinho e continuar se empenhando para propagar o ensinamento correto, sem se deixar abater pela perseguição e outras adversidades, nessa era caluniosa caracterizada por conflitos e disputas. A presença desse devoto é essencial para se abrir o caminho da felicidade para toda a humanidade nos Últimos Dias.

Quando examinamos a reali­dade da propagação do ensinamento correto nessa era, podemos apreciar plenamente a intenção de Daishonin ao descrever a pessoa que se empenha abnegadamente a propagar a Lei Mística como “devoto do Sutra do Lótus, mais importante que Shakyamuni, o senhor dos ensinamentos” (WND, v. II, p. 710).

Embora esta carta em alguns aspectos constitua uma introdução ao budismo e ao Sutra do Lótus, endereçada a Shimoyama Mitsu­moto por intermédio de Nichiei, também nos diz que, a menos que saibamos quem é o devoto do Sutra do Lótus que luta pelo bem das pessoas, não compreenderemos o verdadeiro significado do budismo ou deste sutra. Esse é o motivo pelo qual Daishonin busca esclarecer a questão crucial da identidade dos “sacerdotes arrogantes respeitados como sábios” — o terceiro dos “três poderosos inimigos”3 — que se opõem ao devoto do Sutra do Lótus, bem como a identidade do devoto que desencadeou os ataques de todos esses três inimigos.

Em Carta para Shimoyama, Daishonin aponta os erros não só dos ensinamentos da Terra Pura (Nembutsu), mas também das escolas Zen, Palavra Verdadeira e Tendai no Japão, refutando claramente as asserções equivocadas de cada uma delas. Em particular, ele utilizou um grande trecho da carta para denunciar o sacerdote Ryokan4 da escola Preceitos-Palavra Verdadeira, do templo Gokuraku-ji, em Kamakura. Daishonin descreve em detalhes seu desafio a Ryokan referente às orações pela chuva,5 e citando passagens relevantes das escrituras,6 revela por que as orações de Ryokan fracassaram. Ele discerniu e apontou a verdadeira natureza de Ryokan, oculta por trás da imagem pública de sábio que mantinha os preceitos.

Por que Daishonin foi tão duro em suas críticas a Ryokan? Pelo fato de Ryokan ser o principal responsável pela destruição dos ensinamentos do budismo no Japão, enganando continuamente as pessoas vestindo a máscara de santidade. Vendo-o como real­mente era, Daishonin lhe diz [em Carta para Ryokan do Templo Gokuraku-ji]: “Falso sábio, pessoa de arrogância desmedida, nesta existência com certeza será identificado como um traidor da nação e, na próxima, cairá na região do inferno” (WND, v. II, p. 324). “Falso sábio, pessoa de arrogância desmedida” é a figura religiosa de alta posição, reverenciada pelas pessoas, mas que na verdade só se importa com seu próprio benefício e, por maldade, tenta prejudicar o devoto do Sutra do Lótus. “Sacerdotes arrogantes respeitados como sábios” são os mais perniciosos dos três poderosos inimigos e os mais difíceis de detectar.

Apesar de ostentarem uma aparência de compaixão, essas pessoas na realidade desprezam os outros e distorcem a verdade intencionalmente por interesse pessoal, causando a infelicidade das demais pessoas sem remorso algum. Elas se ressentem dos justos e corretos e, de fato, os perseguem. Não há nada mais maléfico.

A luta do devoto do Sutra do Lótus contra a grande maldade

Daishonin combateu impetuo­samente o mal fundamental que engana e confunde as pessoas em relação à verdade. Ele agiu desse modo para esclarecer quem está propagando e praticando o ensinamento correto exatamente de acordo com o Sutra do Lótus, movido pelo desejo de levar a verdadeira felicidade às pessoas. O único caminho para se construir uma sociedade na qual as pessoas consigam discernir a verdadeira natureza daqueles que fingem ser santos e virtuosos e não ser desencaminhadas por artifícios e simulacros é encorajar cada indivíduo a elevar sua própria condição espiritual.

O Sr. Makiguchi certa vez observou que, se não fosse Daishonin, alguém como Ryokan teria terminado a existência sendo considerado um buda vivo.

Sem a presença de pessoas de sabedoria capazes de enxergar a verdade, os valores se tornam distorcidos, os padrões do bem e do mal se perdem, e a sociedade, manipulada por falsos veneráveis arrogantes, decai.

Citando uma passagem de Carta para Shimoyama,7 o Sr. Makiguchi também declarou que o Sutra do Lótus é um ensinamento que leva as pessoas ao bem máximo, revelando a verdadeira natureza das funções demoníacas que aparentam estar realizando atos de bem menor, mas na realidade constituem fontes de grande mal.8

Como ele aponta, funções demoníacas assumem a aparência de bem menor, o que dificulta para as pessoas discernir sua verdadeira natureza. Essa é a razão pela qual as influências negativas só podem ser vencidas pelo bem maior.

A pessoa que pratica e ensina a verdade do sutra a todos é o devoto do Sutra do Lótus. Carta para Shimoyama oferece um relato detalhado dos esforços de Daishonin como devoto do Sutra do Lótus, narrando acontecimentos de sua vida, como encaminhar o tratado Estabelecer o Ensinamento Correto para a Pacificação da Terra às autoridades, a Perseguição de Matsubagayatsu, sofrer o Exílio em Izu, a Perseguição de Tatsunokuchi e o Exílio em Sado, e ainda seu encontro com Hei no Saemon-no-jo9 após ter sido perdoado.

Essa descrição mostra que ninguém se empenhou mais arduamente em prol da felicidade das pessoas do que Daishonin, e essa é a prova de que ele é o devoto do Sutra do Lótus que lutou contra os poderosos inimigos, inclusive os sacerdotes arrogantes respeitados como sábios.

Ser um verdadeiro praticante, não apenas um crente

Na época atual, a Soka Gakkai está dando continuidade à linhagem de devoto do Sutra do Lótus exatamente de acordo com os escritos de Daishonin.

Na quinta convenção da Soka Kyoiku Gakkai (Sociedade Educacional de Criação de Valor, precursora da Soka Gakkai), em 22 de novembro de 1942, o Sr. Makiguchi declarou:

Devemos traçar uma clara distinção entre crentes e praticantes. Embora seja incontestável que alguém que creia [na Lei Mística] terá suas orações respondidas e muitos benefícios, isso isoladamente não constitui a prática de bodisatva. Não existe algo como um buda egocêntrico que simplesmente acumula benefícios pessoais e não trabalha para o bem-estar do próximo. A menos que realizemos a prática de bodisatva, não poderemos atingir o estado de buda. Dedicar-se a fazer o bem às pessoas com o sentimento de um pai é o que distingue o verdadeiro crente e o verdadeiro praticante.10

Esta passagem revela o discernimento penetrante do Sr. Makiguchi de que a prática do Budismo Nichiren consiste inerentemente na prática de bodisatva, a do devoto do Sutra do Lótus.

Por ter vivenciado o benefício profundo da fé no Budismo de Nichiren Daishonin, o Sr. Makiguchi canalizava intensos esforços nas reuniões de palestra. Ao participar desses encontros, descritos por ele como “reuniões de palestra que oferecem provas experimentais da validade de uma vida de bem maior”, assumia a liderança no trabalho de compartilhar a Lei com as pessoas.

Durante a Segunda Guerra Mundial, segundo um documento oficial com as acusações que levaram o primeiro presidente, Tsunesaburo Makiguchi, a ser preso, mais de 240 reu­niões de palestra foram realizadas pela Soka Kyoiku Gakkai entre maio de 1941 e junho de 1943, apesar da opressão das autoridades militares japonesas à organização.

Na quarta convenção da Soka Kyoiku Gakkai, no dia 17 de maio de 1942, ele afirmou enfaticamente:

Devemos guiar o país em direção ao bem maior.11 Isso é comparável a aterrissar na frente do inimigo. Em contraste com a forma ineficaz que os outros grupos religiosos­ efetuam as campanhas de propagação — diri­gindo-se a grandes multidões, sem que alguém se torne um praticante sério — o movimento que iniciei com um único aliado [Josei Toda] há dez anos cresceu extraordinariamente. A razão disso é o fato de termos nos baseado completamente na fé e demonstrado provas reais do benefício de nossa prática budista mutuamente. Observando o progresso que edificamos até agora, acredito que, no futuro, mediante nossos dedicados esforços, poderemos contribuir positivamente para o bem-estar de nossa família e da sociedade e inclusive alcançar o kosen-rufu.12

Em meio a um período turbulento, o Sr. Makiguchi nunca parou de empreender ações em prol do kosen-rufu. Além disso, seu ponto de partida sempre consistia em concentrar esforços em cada pessoa. As reuniões de palestra compõem o único caminho para desenvolver pessoas com um sólido compromisso em relação à fé.

A Soka Gakkai é a organização para o kosen-rufu

Inspirados pela profunda compaixão de Daishonin de conduzir todas as pessoas à iluminação, associados da Soka Gakkai no mundo inteiro estão se empenhando incansavelmente pelo kosen-rufu para ajudar a todos a se tornarem felizes. Cada membro, portanto, é um devoto do Sutra do Lótus dos Últimos Dias da Lei e um bodisatva da terra.

Hoje, nossa rede Soka se estendeu para 192 países e territórios precisamente porque nossos integrantes estão, fielmente, dando continuidade à grandiosa luta dos bodisatvas da terra pela qual Daishonin se levantou só para concretizar o desígnio do Sutra do Lótus, o juramento original de Shakyamuni.

Os diálogos de pessoa a pessoa, de coração a coração, que se iniciaram com a proposta do Sr. Makiguchi de se promover “reuniões­ de palestra que oferecem provas experimentais da validade de uma vida de bem maior”, agora são realizados alegremente nas reuniões de palestra da SGI espalhadas pelo mundo todo.

Em 2013, o Auditório do Grande Juramento pelo Kosen-rufu Mundial foi concluído [em Shinanomachi, Tóquio, Japão]. Um fluxo constante de jovens conscientes de sua missão como bodisatvas da terra prossegue emergindo, e o som da recitação do Nam-myoho­-renge-kyo imbuída do espírito de união de “diferentes em corpo, unos em mente” ecoa por todo o planeta azul. Diálogos de amizade, espalhando as sementes da Lei Mística, se desenrolam por todos os cantos.

A Soka Gakkai será, para todo o sempre, uma organização dedicada ao kosen-rufu, um grupo que compartilha e propaga amplamente o ensinamento correto.

O Sutra do Lótus afirma: “As sementes do estado de buda brotam como resultado da relação [entre as pessoas] e, por essa razão, eles [os budas] pregam o veí­culo único [a Lei Mística]” [LSOC, cap. 2, p. 75] (cf. WND, v. I, p. 1117).

Com o ato de falar aos outros sobre a Lei Mística, plantamos a semente da felicidade em sua vida, uma causa que ativa a natureza de buda dentro deles. Não existe prática budista mais nobre do que essa.

O Dr. Karel Dobbelaere, ex-presidente da Sociedade Internacional para a Sociologia da Religião, expressou: “O Budismo Nichiren define-se como o ‘Budismo da Semeadura’, indicando ser sempre possível realizar uma nova causa que produzirá um novo efeito. Graças à prática, os seguidores podem ‘transformar veneno em remédio’ — ou seja criar valor, não obstante qual seja o seu carma”.13

Compartilhar experiências da fé e convicção na prática budista

O kosen-rufu se inicia mediante o ato de cada membro se dedicar ao diálogo. É importante que compartilhemos honestamente nossas experiências da fé e nossa convicção na prática budista. Com palavras sinceras, provenientes do nosso sentimento mais profundo, estamos plantando as sementes da esperança e da felicidade no coração dos nossos amigos. Aqueles com quem conversamos podem não ter consciência dessas sementes que estão sendo plantadas. Contudo, se continuarmos respeitando-os e valorizando-os, orando pela felicidade deles, nossas orações com certeza produzirão frutos. Quando se depararem com alguma encruzilhada na vida, talvez se recordem do que lhes dissemos. Lembro-me de uma orientação eternamente válida do meu mestre: “Quando compartilhamos o Budismo Nichiren com alguém, [mesmo que a pessoa não venha a abraçar a fé] a confiança permanece”.

A fé na Lei Mística é a bússola que nos mostra o rumo certo na vida.

Em junho deste ano [2015], serão realizadas animadas reuniões em pequenos grupos da Divisão Feminina (DF) por todo o Japão. A filosofia Soka é propagada mediante diálogos de coração a coração, por diálogos que promovem a compreensão e a confiança. Esses encontros em pequenos grupos organizados por integrantes da DF são microcosmos de harmonia humana.

Somos todos bodisatvas da terra que nasceram juntos nesta época para plantar as sementes da Lei Mística no coração de uma pessoa após a outra e consolidar a nossa própria felicidade, bem como a de outras pessoas.

Com o orgulho de ser protagonistas do kosen-rufu dos Últimos Dias da Lei, cumpramos corajosa e convictamente nossa missão como bodisatvas da terra.

Publicadas em junho de 2015 na revista Daibyakurenge.

NOTAS:

1. Refere-se à era de “conflitos e disputas em que a Lei pura se tornará obscura e se perderá”; uma descrição que consta originalmente no Sutra da Grande Compilação. O sutra prediz que no quinto período de quinhentos anos após a morte do Buda — a era correspondente aos Últimos Dias da Lei — escolas budistas rivais brigarão interminavelmente entre si e o ensinamento correto de Shakyamuni se tornará obscuro e se perderá.

2. Consulte a nota imediatamente anterior.

3. “Três poderosos inimigos”: Três tipos de pessoas arrogantes que perseguem aqueles que propagam o Sutra do Lótus na era maléfica após a morte do buda Shakyamuni, descritos na parte em versos que conclui o capítulo “Encorajamento à Devoção” (13º) do Sutra do Lótus. O grande mestre Miaole da China os resumiu como: 1) leigos arrogantes; 2) sacerdotes arrogantes e presunçosos; e 3) sacerdotes arrogantes respeitados como sábios.

4. Ryokan (1217–1303): Também conhecido como Ninsho. Um sacerdote da escola Preceitos-Palavra Verdadeira no Japão. Sob tutela do clã Hojo, Ryokan tornou-se prior do templo Gokuraku-ji em Kamakura. Ele implementou vários projetos de bem-estar social, entre os quais a construção de hospitais e estradas, e detinha enorme influência tanto entre as autoridades do governo como da população em geral. Ele era hostil a Daishonin e conspirava ativamente com as autoridades para que ele e seus seguidores fossem perseguidos.

5. Em Carta de Petição de Yorimoto, Daishonin escreve: “[Enviei uma mensagem a Ryokan dizendo:] ‘Decidiremos qual ensinamento é o correto mediante esta oração por chuva. Se chover dentro de sete dias, podem acreditar que nascerão na Terra Pura pela virtude dos oito preceitos e da Nembutsu, a qual os senhores já praticam. Porém, se não chover, devem abraçar unicamente o Sutra do Lótus’. Felizes por ouvir isso, os dois entregaram a mensagem ao sacerdote Ryokan no templo Gokuraku-ji. O sacerdote Ryokan chorou de alegria e se pôs a orar...” (WND, v. I, p. 808). Ao fracassar nesse desafio, seu antagonismo em relação a Daishonin se intensificou e ele incitou os líderes do governo militar de Kamakura a perseguirem-no, o que acarretou a subsequente Perseguição de Tatsunokuchi e o exílio em Sado.

6. Em Carta para Shimoyama, citando os cinco fatores listados nas escrituras budistas como as razões pelas quais as orações por chuva não são respondidas, Daishonin escreve: “Com essas passagens das escrituras como nosso espelho, vejamos o que elas nos mostram sobre a verdadeira natureza do sacerdote Dois Fogos [Ryokan]. Elas revelam claramente aquilo que ele é. 1) Embora tenha reputação de ser um cumpridor dos preceitos, na verdade, a conduta dele é promíscua; 2) é ganancioso e avarento; 3) é invejoso; 4) nutre visões errôneas; e 5) é lascivo e desregrado. Todos os cinco fatores se aplicam a ele” (WND, v. II, p. 693-694).

7. A passagem de Carta para Shimoyama citada por ele afirma: “Aqueles que são vistos pelo mundo como pessoas de sabedoria estão convencidos de que dominam profundamente os conceitos de tempo e capacidade. No entanto, optam pelo bem menor e põe de lado o bem maior; confiam em sutras provisórios e desprezam o sutra verdadeiro [o Sutra do Lótus]. Consequentemente, o bem menor deles se torna, ao contrário, um grande mal, o remédio deles se transforma em veneno, quando deveriam agir como um parente próximo, comportam-se como inimigos mortais. Tal procedimento é, de fato, difícil de remediar” (WND, v. II, p. 685).

8. Traduzido do japonês. MAKIGUCHI, Tsunesaburo. Makiguchi Tsunesaburo Zenshu [Coletânea das Obras de Tsunesaburo Makiguchi]. Tóquio: Daisanbunmei-sha, v. 10, p. 41, 2000.

9. Hei no Saemon-no-jo (m. 1293): Também conhecido como Hei no Saemon-no-jo Yoritsuna. Importante oficial no clã Hojo, o governo de fato do Japão durante o período Kamakura. Ele serviu a dois sucessivos regentes — Hojo Tokimune e Hojo Sadatoki — e detinha enorme influência, como subchefe do Posto de Comando Militar (sendo o chefe o próprio regente). Colaborou com Ryokan, o sacerdote prior do templo Gokuraku-ji, e outros sacerdotes influentes das escolas budistas estabelecidas da época, para perseguir Daishonin e seus seguidores.

10. Traduzido do japonês. MAKIGUCHI, Tsunesaburo. Makiguchi Tsunesaburo Zenshu [Coletânea das Obras de Tsunesaburo Makiguchi]. Tóquio: Daisanbunmei-sha, v. 10, p. 151, 2000.

11. “Bem maior” indica o valor mais elevado na teoria do valor de Makiguchi, fundamentada no belo, no benefício e no bem.

12. Traduzido do japonês. MAKIGUCHI, Tsunesaburo. Makiguchi Tsunesaburo Zenshu [Coletânea das Obras de Tsunesaburo Makiguchi]. Tóquio: Daisanbunmei-sha, v. 10, p. 147-148, 2000.

13. Extraído de uma palestra do Dr. Karel Dobbelaere intitulada “Some Thoughts on Soka Gakkai, with a Special Reference to SGI” [Algumas Considerações sobre a Soka Gakkai e, em especial, sobre a SGI”, em tradução livre], proferida durante a Série de Palestras Culturais Seikyo, realizada no Centro Internacional Josei Toda, em Tóquio, em 10 de dezembro de 1999.