quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Explanação 5 - A Perseguição em Tatsunokuchi

Budismo do Sol

Escrito 5: A Perseguição em Tatsunokuchi

“Abandonar o transitório e revelar o verdadeiro” Manifestando o grandioso potencial inerente

A Perseguição em Tatsunokuchi

Brasil Seikyo, Edição 2339, 10/09/2016, pág. B1 / Encontro com o Mestre


Quando sofri aquela perseguição no décimo segundo dia, o senhor não apenas me acompanhou a Tatsunokuchi, mas também declarou que morreria ao meu lado. Só posso dizer que isso é algo extraordinário. [...]

Entretanto, nesta existência, como devoto do Sutra do Lótus, fui banido e condenado à morte, no exílio em Ito e na execução em Tatsunokuchi. Pertencente à província de Sagami, Tatsunokuchi foi o local onde Nichiren ofereceu a própria vida. Em virtude de ele ter morrido lá para proteger o Sutra do Lótus, o que esse local poderia ser senão a terra do buda? [...] Nesse sentido, todos os lugares onde Nichiren enfrenta perseguições são a terra do buda.

De todos os lugares deste mundo saha, é em Tatsunokuchi, em Katase, na província de Sagami, no Japão, onde se encontra a vida de Nichiren. Por ele ter dado sua vida nesse local para proteger o Sutra do Lótus, Tatsunokuchi é digna de ser chamada Terra da Luz Tranquila. Isso é o que o capítulo “Os Poderes Sobrenaturais” revela com a seguinte afirmação: “Seja num jardim, num bosque,... em vales montanhosos ou em extensos ermos... nesses lugares os budas entraram no parinirvana”. (CEND, v. I, p. 204)


Introdução

“Uma vida tumultuada” — são palavras que, certa ocasião, registrei por escrito.

Passaram-se sessenta e oito anos desde que me tornei discípulo de Josei Toda e cinquenta e cinco anos desde que fui empossado como terceiro presidente da Soka Gakkai. Foram anos marcados por grandes turbulências. Avancei por essa vida tumultuada, enfrentando ondas violentas, uma após outra, sem momento de descanso ou hesitação.

Na juventude, minha saúde era tão frágil que o médico disse que eu provavelmente não chegaria aos 30 anos. Apesar disso, ainda estou aqui hoje e ultrapassei grandes obstáculos e desafios. E sou muito feliz por ter sido capaz de contribuir com a criação da vigorosa e abrangente correnteza do kosen-rufu mundial com todos vocês.

“Os jovens precisam avançar”

Em setembro de 1948, pouco mais de um ano após ter ingressado na Soka Gakkai, anotei em meu diário quanto me sentia inspirado com as explanações do Sr. Toda sobre o Sutra do Lótus, que eram repletas de compaixão e compromisso inabalável em relação ao kosen-rufu.

A ilimitada compaixão de Nichiren Daishonin que, movido unicamente pelo desejo de conduzir todas as pessoas à iluminação, lutou contra as adversidades para trazer a brilhante luz da aurora para uma época maléfica e obscura me emocionam às lágrimas. Os jovens precisam avançar, seguindo sempre adiante. Os jovens precisam avançar para garantir a eterna transmissão da Lei.1

O Sr. Toda fez com que eu, um jovem comum, despertasse para o caminho de mestre e discípulo dedicado à elevada missão de propagar a Lei Mística. Ele me ensinou que nós, membros da Soka Gakkai, somos bodisatvas da terra e que cada um é um buda infinitamente nobre munido de um potencial ilimitado.

Quando as nuvens da ignorância se dissipam, reconhecemos que nós, mortais comuns, somos dotados de um poder inerente eterno e vasto como o próprio universo.

Os seres humanos possuem um poder sublime; são realmente grandiosos e magnificentes. Todos, igualmente, possuem esse estado de vida de máxima nobreza. Por esse motivo, o Budismo de Nichiren Daishonin é uma filosofia de respeito à vida e aos seres humanos. Aqueles que despertaram para a missão de propagar a Lei Mística conseguem extrair de dentro de si ilimitada coragem e sabedoria.

Nichiren Daishonin demonstrou plenamente esta verdade para todas as pessoas dos Últimos Dias da Lei por meio de sua luta abnegada em prol do kosen-rufu. Como indivíduo, ele “abandou o transitório e revelou o verdadeiro”, estabelecendo um exemplo de como todos podem evidenciar o nobre estado de buda originalmente inerente.

Nesse trecho, estudaremos esse profundo princípio com base no escrito A Perseguição em Tatsunokuchi, uma das cartas de Daishonin para Shijo Kingo.

Trecho 1

Quando sofri aquela perseguição no décimo segundo dia, o senhor não apenas me acompanhou a Tatsunokuchi, mas também declarou que morreria ao meu lado. Só posso dizer que isso é algo extraordinário. [...] (CEND, v. I, p. 204)

O sincero incentivo para um discípulo dedicado

Essa carta, endereçada a Shijo Kingo, foi escrita em 21 de setembro de 1271, enquanto Nichiren Daishonin estava detido na residência de Homma Rokuro Saemon-no-jo2 (Homma Shige­tsura) em Echi, província de Sagami (atual cidade de Atsugi, na província de Kanagawa). Haviam se passado apenas nove dias após Daishonin ter sobrevivido à Perseguição de Tatsu­nokuchi, uma tentativa de decapitá-lo na calada da noite e quando esteve muito próximo de perder a vida. Ao tomar conhecimento do perigo iminente que Daishonin estava enfrentando, Shijo Kingo correu para ficar ao seu lado e o acompanhou até Tatsunokuchi [também situado na província de Sagami]. Quando a execução estava prestes a se consumar, Kingo insistiu que cometeria suicídio e morreria junto com ele.

Daishonin declara: “Só posso dizer que isso é algo extraordinário” (CEND, v. I, p. 204), referindo-se ao laço entre mestre e discípulo que o unia a Shijo Kingo, que encarou a possibilidade de morrer ao seu lado em Tatsunokuchi.

O sereno estado de vida de Nichiren Daishonin

Vamos rever os eventos que levaram à Perseguição de Tatsunokuchi.

Ataques caluniosos desferidos contra Daishonin pelo sacerdote Ryokan3 da escola Preceitos-Palavra Verdadeira e outros que nutriam ódio profundo por ele estavam por trás da perseguição. Além disso, com o pânico e a agitação causados pela crescente ameaça de invasão por parte das forças do império mongol, o governo tentava reforçar seu controle e, nesse contexto­, viam Daishonin e seus seguidores com antagonismo [como uma força que desafiava o regime].

Em 12 de setembro de 1271, um grande grupo de soldados armados, liderado por Hei no Saemon-no-jo Yoritsuna,4 atacou a morada de Daishonin em Kamakura e o prendeu. Daishonin denunciou destemidamente esse ato, declarando: “Que espetáculo! Vejam como Hei no Saemon enlouqueceu! Cavalheiros, os senhores acabaram de derrubar o pilar do Japão” (WND, v. I, p. 766). Após ser preso, Nichiren Daishonin foi levado para a mansão de uma personalidade influente no governo de Kamakura, Hojo Nobutoki,5 que era comandante militar de Sado. Esse fato indica que a decisão de exilar Nichiren Daishonin na remota Ilha de Sado já havia sido tomada.

Porém, no meio da noite, Daishonin foi levado de cavalo para outro lugar. Aparentemente, certos oficiais do governo de Kamakura tramaram secretamente decapitá-lo.

Enquanto era conduzido pela estrada à margem da praia Yui, rodeado por soldados, Nichiren Daishonin enviou um mensageiro até Shijo Kingo. Quando soube do que estava acontecendo, Kingo correu descalço ao encontro de Daishonin. Quando Shijo Kingo tomou as rédeas do cavalo, Daishonin disse-lhe: “Chegou o momento de oferecer minha cabeça ao Sutra do Lótus” (WND, v. I, p. 767).

Finalmente chegam a uma praia afastada — Tatsunokuchi, nos arredores de Kamakura. Foi no horário das 2h às 4h da madrugada, e a área estava envolta no silêncio e na escuridão. Quando a espada é sacada, Kingo chora e diz a Daishonin: “São seus últimos momentos!” (Ibidem). Daishonin, porém, responde serenamente que não poderia imaginar alegria maior do que dar a sua vida pelo Sutra do Lótus, e que Kingo devia se alegrar e sorrir.6

Nesse instante, quando forças demoníacas, os “ladrões de vida”, tentavam dar fim a Daishonin, um estranho fenômeno — um episódio muito conhecido — aconteceu e ele escapou da morte por um triz em decorrência disso. Na parte final dessa carta, Daishonin declara que a divindade da Lua — uma das três divindades celestiais de luz (divindades do Sol, da Lua e das estrelas) que protegem os praticantes do Sutra do Lótus — apareceu como “um objeto luminoso” e o protegeu em Tatsunokuchi (cf. CEND, v. I, p. 205).

Aterrorizados com esse incidente, os soldados abandonaram a tentativa de execução. Posteriormente, Daishonin foi levado para Echi, e Shijo Kingo o acompanhou no trajeto. Daishonin escreve nessa carta que depois de chegarem a Echi, a divindade das estrelas também apareceu e, portanto, ele estava certo de que seria protegido também pela divindade do Sol (cf. Ibidem, p. 206).7

Na atualidade, o Centro de Estudos da SGI, na província de Kanagawa, situa-se na encosta da área em que se acredita ser a localização de Tatsunokuchi. Dos seus jardins, pode-se ver a ilha de Enoshima próxima dali [de onde surgiu o objeto luminoso na ocasião da Perseguição de Tatsunokuchi]. É um local propício para se refletir sobre a provação de Daishonin, de ter a própria vida ameaçada, e renovar a determinação de concretizar o kosen-rufu. Muitos associados da SGI visitam o centro de estudo e mantêm calorosos diálogos com os membros da localidade.

Trecho 2 do Gosho

Entretanto, nesta existência, como devoto do Sutra do Lótus, fui banido e condenado à morte, no exílio em Ito e na execução em Tatsunokuchi. Pertencente à província de Sagami, Tatsunokuchi foi o local onde Nichiren ofereceu a própria vida. Em virtude de ele ter morrido lá para proteger o Sutra do Lótus, o que esse local poderia ser senão a terra do buda? [...] Nesse sentido, todos os lugares onde Nichiren enfrenta perseguições são a terra do buda.

De todos os lugares deste mundo saha, é em Tatsunokuchi, em Katase, na província de Sagami, no Japão, onde se encontra a vida de Nichiren. Por ele ter dado sua vida nesse local para proteger o Sutra do Lótus, Tatsunokuchi é digna de ser chamada Terra da Luz Tranquila. Isso é o que o capítulo “Os Poderes Sobrenaturais” revela com a seguinte afirmação: “Seja num jardim, num bosque,... em vales montanhosos ou em extensos ermos... nesses lugares os budas entraram no parinirvana”. (CEND, v. I, p. 204)

Onde se enfrentam perseguições pelo Sutra do Lótus é a terra do buda

Na passagem imediatamente anterior a esta, Daishonin diz: “Inúmeros foram os lugares, em existências passadas, onde dei a vida para proteger esposa e filhos, terras e seguidores! (…) Entretanto, não houve uma única vez em que doei a vida pelo Sutra do Lótus ou em que sofri perseguições para defender o daimoku [Nam-myoho-renge-kyo]” (CEND, v. I, p. 204). Como em nenhum desses casos em que dera a vida por algo a finalidade fora para atingir o estado de buda, nenhum dos lugares onde tais fatos ocorreram é a terra do buda, reflete ele solenemente [nessa parte].

Porém, as perseguições que enfrentara na vida, que até então incluíam um exílio e uma iminente execução, diz ele, aconteceram por ele ser o devoto do Sutra do Lótus e pelo Sutra do Lótus.

No exemplar dos Escritos de Nichiren Daishonin do Sr. Toda, que foi confiscado pelas autoridades militaristas durante a Segunda Guerra Mundial, essa passagem está claramente sublinhada.

Nesse trecho, “ser exilado” corresponde ao exílio em Izu em 1261, enquanto “condenado à morte” refere-se ao fato de quase ter sido decapitado em Tatsunokuchi. Daishonin sofrera várias ameaças à sua vida antes disso, contudo, como ele aponta ao afirmar “Tatsunokuchi, na província de Sagami, é o lugar onde Nichiren deu sua vida” (Ibidem), a Perseguição de Tatsunokuchi foi um evento particularmente decisivo.

Permanecer inabalável ao enfrentar uma perseguição que poderia significar dar a vida pelo Sutra do Lótus — essa atitude, em si, é uma expressão do sublime estado de buda. Não há dúvida de que essa convicção, em relação ao lugar onde ele enfrentara tal perseguição, o impeliu a declarar: “O que esse local poderia ser senão a terra do buda?” (Ibidem).

Por ser uma terra do buda, a pessoa que ali habita é um buda. Shakyamuni atingiu a iluminação sob a árvore bodhi, perto de Gaya, na Índia. Nichiren Daishonin manifestou seu elevado estado de vida como o Buda dos Últimos Dias da Lei em Tatsunokuchi.

Nessa carta, citando uma passagem do capítulo “Meios Apropriados” (2º) do Sutra do Lótus, Daishonin declara: “Nas terras do buda das dez direções há somente a Lei do veículo único” (Ibidem). Em todos os lugares, em todas as dez direções, o Sutra do Lótus é o único ensinamento para se atingir o estado de buda. Consequentemente, o local em que se enfrenta perseguições em prol do Sutra do Lótus é a terra do buda, ou o lugar onde o Buda reside.

Qualquer lugar pode ser transformado na Terra da Luz Tranquila

Daishonin conclui, portanto, que “todos os lugares onde Nichiren enfrenta perseguições são a terra do buda” (Ibidem), e declara que há um lugar, em particular, onde “se encontra a vida de Nichiren. Por ele ter dado sua vida nesse local para proteger o Sutra do Lótus…” (CEND, v. I, p. 204), esse lugar, diz ele, é a Terra da Luz Tranquila — em outras palavras, a eterna terra do buda.

Na carta, Daishonin identifica claramente o campo de batalha onde ele travou sua luta crucial — a batalha entre o Buda e as forças demoníacas, dizendo: “De todos os lugares deste mundo saha, é em Tatsunokuchi, em Katase, na província de Sagami, no Japão” (Ibidem). Se Nichiren Daishonin não tivesse assumido uma postura firme naquele local, como um corajoso praticante do Sutra do Lótus, Tatsunokuchi seria apenas um lugar-comum. Sua poderosa determinação de viver de acordo com a Lei Mística até o fim é o que transformou esse lugar em particular, neste mundo saha repleto de sofrimento, na Terra da Luz Tranquila que expressa o eterno benefício da Lei Mística. Esse é o significado do princípio budista “o mundo saha é a própria Terra da Luz Tranquila”.

Para fundamentar essa afirmação, Daishonin cita uma passagem do capítulo “Os Poderes Sobrenaturais d’Aquele que Assim Chega” (21º) do Sutra do Lótus, que declara que, após o falecimento d’Aquele que Assim Chega, os locais onde aqueles que praticam o Sutra do Lótus conforme ele instruiu — seja um jardim, um bosque, vales montanhosos ou uma selva extensa — são lugares onde os budas alcançaram a iluminação, expuseram a Lei e entraram no nirvana (cf. LSOC, cap. 21, p. 316).

Na era após o falecimento do Buda, qualquer lugar onde as pessoas pratiquem exatamente de acordo com os ensinamentos do Buda é o lugar onde o Buda eterno reside constantemente.

Notas

1. Traduzido do japonês. IKEDA, Daisaku. Kantogen Kogi Shu [Coletânea de Artigos e Explanações]. Tóquio: Soka Gakkai, v. 4, p. 154-155, 1966.

2. Homma Rokuro Saemon-no-jo: Também conhecido como Homma Shigetsura. Homma serviu como vassalo do poderoso oficial Hojo Nobutoki que, na época, era o governador da província de Musashi e comandante militar da Ilha de Sado. Ao mesmo tempo que possuía um feudo em Echi, na província de Sagami, Homma também era administrador de Niiho, na Ilha de Sado, bem como subcomandante militar de toda a ilha. Daishonin foi exilado em Sado sob sua custódia.

3. Ryokan (jap. Rykan; 1217–1303): Também conhecido como Ninsho. Sacerdote da escola Preceitos-Palavra Verdadeira e contemporâneo de Nichiren Daishonin. Com o apoio do clã Hojo, Ryokan tornou-se o prior do templo Gokuraku-ji em Kamakura e adquiriu grande influência. Era inimigo de Daishonin e conspirou ativamente com as autoridades a fim de perseguir a ele e seus discípulos.

4. Hei no Saemon-no-jo Yoritsuna (jap.; m. 1293): Também conhecido como Taira no Yoritsuna. Importante autoridade da regência Hojo; controlou o xogunato de Kamakura e governou o Japão no século 13. Serviu a dois regentes sucessivos, Hojo Tokimune e Hojo Sadatoki, e exerceu forte influência como subchefe do Posto de Comando Militar (o chefe era o próprio regente). Foi também um dos perpetradores da perseguição a Nichiren Daishonin e aos seguidores deste.

5. Hojo Nobutoki (1238–1323): Uma figura poderosa no governo Kamakura. Na época da Perseguição de Tatsunokuchi, ele era o governador da província de Musashi (atualmente Tóquio, prefeitura de Saitama e parte da prefeitura de Kanagawa) e chefe militar da Ilha de Sado. Influenciado pelos rumores caluniosos do sacerdote Ryokan e adeptos da Nembutsu, ele foi envolvido nas manobras para perseguir Daishonin e seus seguidores.

6. Em As Ações do Devoto do Sutra do Lótus, Nichiren Daishonin escreve: “Finalmente, chegamos aonde imaginei ser o local de minha execução. Dito e feito; de súbito, os soldados pararam e, inquietos, começaram a dar voltas, cada um para um lado. Saemon-no-jo [Shijo Kingo], aos prantos, disse: ‘São seus últimos momentos!’ E respondi: ‘Não compreende! Que alegria maior poderia haver? Não se lembra do que prometeu?’” (WND, v. I, p. 767).

7. Daishonin escreve: Soube, extraoficialmente, que por ordens do senhor de Kamakura [Hojo Tokimune], serei exilado na Ilha de Sado. Entre os três filhos celestiais da luz, a divindade da Lua salvou minha vida em Tatsunokuchi, aparecendo na forma de um objeto brilhante; e a divindade das estrelas desceu para saudar-me há quatro ou cinco dias. Agora só falta aparecer a divindade do Sol, e com certeza, ela me protegerá. Que reconfortante! Que encorajador!” (CEND, v. I, p. 205).

8. Daishonin escreveu: “A partir de então, nenhuma das extremidades que conheci me permitiu atingir o estado de buda. Por eu não ter atingido o estado de buda, os mares e os rios em que joguei minha vida não são a terra do buda” (WND, v. I, p. 196).

9. Daishonin declara: “Nesse sutra, encontramos a seguinte passagem: ‘Nas terras do buda das dez direções há somente a Lei do veículo único’. Isso não fundamenta a minha afirmação? A ‘Lei do veículo único’ é o Sutra do Lótus. Não existe outro ensinamento verdadeiro a não ser o Sutra do Lótus em quaisquer das terras do buda das dez direções. A passagem do sutra continua: ‘Não há duas nem três, exceto quando o Buda prega-os como meios apropriados’. Nesse sentido, todos os lugares onde Nichiren enfrenta perseguições são a terra do buda” (CEND, v. I, p. 204).


“Abandonar o transitório e revelar o verdadeiro”

Manifestando o grandioso potencial inerente

Trecho 2 do Escrito:

Entretanto, nesta existência, como devoto do Sutra do Lótus, fui banido e condenado à morte, no exílio em Ito e na execução em Tatsunokuchi. Pertencente à província de Sagami, Tatsunokuchi foi o local onde Nichiren ofereceu a própria vida. Em virtude de ele ter morrido lá para proteger o Sutra do Lótus, o que esse local poderia ser senão a terra do buda? [...] Nesse sentido, todos os lugares onde Nichiren enfrenta perseguições são a terra do buda. 
De todos os lugares deste mundo saha, é em Tatsunokuchi, em Katase, na província de Sagami, no Japão, onde se encontra a vida de Nichiren. Por ele ter dado sua vida nesse local para proteger o Sutra do Lótus, Tatsunokuchi é digna de ser chamada Terra da Luz Tranquila. Isso é o que o capítulo “Os Poderes Sobrenaturais” revela com a seguinte afirmação: “Seja num jardim, num bosque,... em vales montanhosos ou em extensos ermos... nesses lugares os budas entraram no parinirvana”. (CEND, v. I, p. 204)

O budismo nos capacita a atingir um estado de vida tão vasto quanto o universo

Em Abertura dos Olhos, redigida por Nichiren Daishonin algum tempo depois no inverno gélido de Sado, consta: “No décimo segundo dia do nono mês do ano passado, entre as horas do rato e do boi [entre 23 horas e 3 horas], esta pessoa chamada Nichiren foi decapitada. Foi sua alma que chegou a esta Ilha de Sado...” (CEND, v. I, p. 282).
Esta é uma referência ao processo de “abandonar o transitório e revelar o verdadeiro” que Daishonin vivenciou. Ele abandonou sua condição transitória de pessoa comum presa ao fardo do carma e sofrimentos e, apesar de continuar sendo um simples mortal, revelou seu verdadeiro eu de buda do tempo sem início,1 incorporando um estado de completa liberdade em total comunhão com a eterna Lei Mística.
No capítulo “A Extensão da Vida d’Aquele que Assim Chega” (16º) do Sutra do Lótus, Shakyamuni também abandona a condição transitória e revela seu verdadeiro eu — esclarecendo que, na realidade, não havia atingido a iluminação pela primeira vez sob a árvore bodhi na Índia, mas em um tempo inimaginavelmente remoto no passado.
Para nós, o significado fundamental disso não reside no fato de o buda ter se revelado como buda eterno, superior e isolado dos seres comuns ou dos “nove mundos” (mundo do inferno ao mundo dos bodisatvas),2 antes, representa um chamado para que todos voltem a atenção para Shakyamuni como ser humano. Trata-se de um chamado para que as pessoas adotem o buda Shakyamuni humano como modelo, seguindo o exemplo dele para que despertem para a grandiosidade inerente à própria vida.
Por ele próprio “abandonar o transitório e revelar o verdadeiro”, Daishonin abriu o caminho para que todos os seres humanos pudessem atingir o estado de buda na forma que se apresentam — ou seja, manifestar o mundo dos budas como indivíduos comuns dos nove mundos.
Isso significa que as pessoas comuns, cuja vida é governada por desejos egoístas e presa ao fardo do carma e do sofrimento, retornam à condição de vida inerente do tempo sem início, rompem as correntes do carma e se tornam um buda repleto de compaixão e sabedoria que deseja ajudar toda a humanidade a atingir a iluminação. Este é o mais nobre estado que podemos experimentar como ser humano. Toda sensei definia esse aspecto como “pessoa comum iluminada desde o tempo sem início”.
Esse estado de vida inerente é o do buda do tempo sem início. Daishonin estabeleceu um caminho pelo qual todas as pessoas podem atingir a iluminação e sua presença foi como a luz do sol inundando uma caverna que permaneceu na escuridão por incontáveis kalpa [período de tempo extremamente longo].

Uma única pessoa a “abandonar o transitório e revelar o verdadeiro” pode abrir o caminho para todas as outras 

No final desta carta [A Perseguição em Tatsunokuchi], Daishonin, mais uma vez, elogia Shijo Kingo por tê-lo acompanhado a Tatsunokuchi, o local em que ele revelou seu verdadeiro eu, dizendo: “O senhor acompanhou Nichiren, jurando dar sua vida como um devoto do Sutra do Lótus. (...), assim como eu próprio, estava determinado a morrer pelo Sutra do Lótus” (Ibidem, p. 204-205).
Shijo Kingo se juntou ao seu mestre de forma incondicional. É provável que ele não compreendesse por completo o profundo significado que a Perseguição de Tatsunokuchi tinha para Daishonin.
Podemos interpretar esta passagem como um indicativo de que o mestre está sempre se empenhando para abrir o caminho para o discípulo. O desejo do Buda é a unicidade de mestre e discípulo, de que ambos conquistem a mesma condição. O mestre ora para que o discípulo atinja um estado iluminado idêntico ao que ele já atingiu. O mestre acredita nisso e espera o mesmo do discípulo.  
Em outras palavras, o próprio Daishonin primeiro demons­trou um estado de vida indestrutível, mantendo-se inabalável mes­mo em meio à pior situação imaginável a que um ser humano poderia ser submetido — para que qualquer pessoa pudesse, assim como ele, manifestar a grande Lei que incorpora o princípio da “possessão mútua dos dez mundos”.3 Quando despertamos para o fato de que somos originalmente budas, percebemos que isso também vale para os outros.
“Abandonar o transitório e revelar o verdadeiro” significa “revelar a verdade” para todas as pessoas — ou seja, evidenciar uma condição de vida suprema e nobre inerente a nós e ajudar os demais a fazerem o mesmo. Somos budas, e os outros também. “Abandonar o transitório e revelar o verdadeiro” compõe a base fundamental de nossas ações assentadas no respeito a todos os seres humanos.
Consequentemente, no que se refere a Daishonin “abandonar o transitório e revelar o verdadeiro”, isso não representa apenas um ato pessoal, mas uma demonstração de que todos podem revelar plenamente em sua vida o inexaurível repositório de tesouros que existe dentro de si. Como meio para atingi-lo, ele ensina a importância de se empenhar na fé com o espírito de “verdadeira causa” — de sempre avançar a partir deste momento — um modo de prática em que nos dispomos a enfrentar bravamente os mais duros desafios da realidade com base no juramento de unicidade de mestre e discípulo de lutar pela iluminação de toda a humanidade.

“Buda” é outro nome para aquele que continua se esforçando

Enquanto continuarmos dedicando a vida ao kosen-rufu como devotos, ou genuínos praticantes, do Sutra do Lótus, nós nos veremos envolvidos em uma infindável luta contra as forças demoníacas — os “três poderosos inimigos”4 e os “três obstáculos e quatro maldades”.5
Isso aconteceu com Shakyamuni também. Uma antiga escritura budista afirma que, ao atingir a iluminação sob a árvore bodhi depois de repelir as primeiras tentações de Mara, o rei demônio, Shakyamuni continuou sendo atacado por influências negativas, que tentavam persuadi-lo e ameaçá-lo para que abandonasse a ideia de ensinar aos outros a verdade para a qual ele havia se iluminado.6
Atingir a iluminação não significa que [após alcançá-la] não será necessário dar continuidade à prática budista, ou que alguém nunca mais terá de lutar contra as funções demoníacas de novo.
Qual o propósito de se atingir a iluminação? Ser capaz de ajudar todas as pessoas a alcançar a felicidade. O verdadeiro trabalho começa depois que se alcança a iluminação. É aí que as influências malignas atacam com ferocidade ainda maior. Aqueles que conti­nuam se empenhando nessa luta são budas.
Por ocasião da Perseguição de Tatsunokuchi, quando Daishonin “abandonou o transitório e revelou o verdadeiro” em sua própria vida, ele demonstrou seu verdadeiro eu como o buda do tempo sem início por meio de seu exemplo de triunfo sobre uma grande perseguição. Empenhado em cumprir seu juramento seigan — ligado ao grande juramento do Buda pela felicidade de toda a humanidade —, ele acionou, com total plenitude e liberdade, seu poder e capacidade, e enfrentou intrepidamente todos os desafios, instigando, ao mesmo tempo, quem ainda não havia despertado para a natureza inerente de viver de modo fiel a si próprio. Quando pessoas conscientes tomam uma posição, o significado de “abandonar o transitório e revelar o verdadeiro” de Daishonin se concretiza.

A Soka Gakkai mantém o espírito de Daishonin

A Soka Gakkai está dando continuidade, fielmente, ao espírito de Nichiren Daishonin de “abandonar o transitório e revelar o verdadeiro”.
Durante a Segunda Guerra Mundial, o presidente fundador da Soka Gakkai, Tsunesaburo Makiguchi, em sua luta contra o ultranacionalismo do Japão, dizia com frequência que a Soka Gakkai devia “abandonar o transitório e revelar o verdadeiro”. Ao sair da prisão, Toda sensei, que havia sido encarcerado com o professor Makiguchi, também conclamou a Soka Gakkai a “abandonar o transitório e revelar o verdadeiro”, resolutamente convicto de que mestres e discípulos Soka se uniriam e empreenderiam ações com base no juramento de realizar o kosen-rufu selado desde o tempo sem início.
E hoje, a Soka Gakkai deve, novamente, “abandonar o transitório e revelar o verdadeiro”. Para tanto, cada um deve se levantar com a consciência de ser um bodisatva da terra e com o compromisso de cumprir seu juramento como genuíno discípulo de Nichiren Daishonin.
Por mais que falemos do maravilhoso poder inato da vida, ou do potencial ilimitado dos seres humanos, por si só, isso não passa de uma abstração. Antes, ao nos empenharmos pelo autoaprimoramento em meio às adversidades mais intensas é que nosso poder inato como seres humanos se revela. O verdadeiro eu, do qual nem tínhamos consciência, vem à tona.
Hoje, passados oitenta e cinco anos desde a fundação da Soka Gakkai, os bodisatvas da terra estão avançando dinamicamente pelo mundo todo. Recitando Nam-myoho-renge-kyo vibrantemente, eles deixaram para trás uma existência repleta de sofrimentos cármicos, deram adeus à resignação e ao desespero e estão agindo pela própria felicidade e pela felicidade dos outros. Tendo despertado para a missão única e pessoal, conduzem uma vida de coragem e esperança.
Quero declarar que todo drama que se desenrola na vida deles, cada epopeia de revolução humana vivenciada por esses indivíduos comuns, constitui um brilhante triunfo da grandeza inerente do ser humano, de “abandonar o transitório e revelar o verdadeiro”, dando, assim, expressão ao eterno poder inato a cada um.


Imensurável riqueza interior

Há quatro décadas, em 1975, encontrei-me pela primeira vez com Aurelio Peccei (1908—1984), cofundador do Clube de Roma, um grupo dedicado a reflexões e em busca de soluções para os grandes problemas mundiais.
O diálogo, que girou em torno de nossas preocupações acerca dos rumos da civilização contemporânea e na busca de uma nova esperança para o futuro, no final, teve como ponto de chegada uma conclusão comum. Quando discorri sobre o significado de revolução humana no Budismo de Nichiren Daishonin, o Dr. Peccei assentiu profundamente e apontou a necessidade de uma renascença do espírito humano, uma revolução no interior dos próprios seres humanos.
O Dr. Peccei lutou contra o fascismo na Segunda Guerra Mundial, foi preso e submetido a severa tortura. Ele foi um inesquecível irmão espiritual, um amigo de luta comum. Em nossa interlocução, ele disse: “Recursos externos são limitados, mas nossa riqueza interior é infinita. Ela é completamente inexplorada, e a revolução humana é um meio para acioná-la. Devemos fazer tudo ao nosso alcance para promover a revolução humana”.
Ele destacou de maneira consistente a relevância de desenvolver o infinito potencial, conforme expresso na filosofia da revolução humana. Acredito firmemente que o ponto de vista dele tem profunda consonância com o ensinamento budista de “abandonar o transitório e revelar o verdadeiro”, que conclama a todas as pessoas para que despertem para sua nobreza inerente e desenvolvam seu ilimitado potencial interior.

Avancemos a passos
largos de hoje em diante

Em Registro dos Ensinamentos Transmitidos Oralmente (Ongi Kuden), Nichiren Daishonin cita um comentário de Fu Ta-shih7 da China: “Manhã após manhã levantamos com o Buda, noite após noite com o Buda descansamos. Momento a momento alcançamos o caminho, momento a momento revelamos nosso verdadeiro eu” (OTT, p. 83). “Abandonar o transitório e revelar o verdadeiro” significa se empenhar na fé com o espírito de “verdadeira causa”, de avançar continuamente a partir deste momento. Significa entrar em ação neste exato instante. Ao agirmos desta forma, transbordará em nosso ser a grande energia vital do tempo sem início. A cada momento, o Budismo do Sol despontará com toda a radiân­cia em nossa vida, iluminando a escuridão dos Últimos Dias da Lei.
Avancemos a passos largos de hoje em diante, fazendo resplandecer o sol da revolução humana, extraindo ativamente o potencial infinito que existe em nós e nos outros!


Notas
1. Buda do tempo sem início: Buda eterno que despertou para a Lei suprema, incorpora a Lei e livremente emprega seus benefícios. “Tempo sem início” não indica um ponto em particular no distante passado, mas a eternidade.
2. “Nove mundos”: Referência aos nove dos “dez mundos”, excluindo-se o mundo dos budas. Os “nove mundos” diferem do mundo dos budas por indicar as condições transitórias e ilusórias da vida. Eles são: 1) mundo do inferno; 2) mundo dos espíritos famintos; 3) mundo dos animais; 4) mundo dos asura; 5) mundo dos seres humanos; 6) mundo dos seres celestiais; 7) mundo dos ouvintes da voz; 8) mundo dos que despertaram para a causa; e 9) mundo dos bodisatvas.
3. “Possessão mútua dos dez mundos”: Princípio formulado por Tiantai com base no Sutra do Lótus. Segundo este princípio, cada um dos dez mundos possui o potencial inerente a todos os dez. Da ótica dos estados de vida potenciais, “possessão mútua” significa que a vida não se fixa a um ou a outro dos dez mundos, mas pode manifestar qualquer um dos dez – do estado de inferno ao estado de buda – a qualquer momento. O ponto fundamental deste princípio é que todos os seres, em quaisquer dos nove mundos, possuem a natureza de buda. Assim, cada pessoa tem o potencial para manifestar o estado de buda, da mesma forma que um buda também possui os nove mundos, não sendo, portanto, separado ou diferente das pessoas comuns.
4. “Três poderosos inimigos”: Também “três tipos de inimigos”. Três categorias de pessoas que perseguem aqueles que propagam o Sutra do Lótus após a morte do Buda, conforme descrito no capítulo “Encorajamento à Devoção” desse sutra. Eles são: 1) leigos arrogantes 2) sacerdotes arrogantes e presunçosos; e 3) sacerdotes respeitados como sábios.
5. “Três obstáculos e quatro maldades”: Vários obstáculos e adversidades que tentam impedir a prática budista. Os “três obstáculos” são: 1) obstáculo dos desejos mundanos; 2) obstáculo do carma, que pode se manifestar na forma de oposição do cônjuge ou dos filhos; e 3) obstáculo da retribuição, também interpretado como obstáculos causados pelas pessoas às quais o praticante deve obediência, como governantes e pais. As “quatro maldades” são: 1) maldade dos cinco componentes; 2) maldade dos desejos mundanos; 3) maldade da morte; e 4) maldade celestial.
6. The Connected Discourses of the Buddha: A Translation of the Samyutta Nikaya [Discursos Agrupados do Buda: Tradução de Samyutta Nikaya]. Tradução de Bhikkhu Bodhi. Boston: Wisdom Publications, 2000. p. 216-220.
7. Fu Ta-shih (497—569): Leigo budista na China que conquistou o respeito do Imperador Wu, da dinastia Liang, que era devoto do budismo. Era não somente um sincero praticante do budismo, mas também um grande filantropo. Construiu o templo Shuang-lin e um repositório para sutras com a intenção de abrigar toda coleção de escrituras budistas. O repositório era único, tendo estantes giratórias com oito faces para armazenar as escrituras. Esse modelo de bibliotecas de sutras foi, posteriormente, adotado por vários templos.


Erratas
Na edição anterior (2.339), página B2, segundo parágrafo, onde se lê “Passaram-se sessenta e seis anos desde...”, leia-se “Passaram-se sessenta e oito anos desde...”.
Na página B3, primeira coluna, final do primeiro parágrafo, onde consta “[nessa parte].”, o correto é “[nessa parte].8”; ainda nessa mesma página, última coluna, final da primeira frase do primeiro parágrafo, consta “(Ibidem).”, o correto é “(Ibidem).9”.
Diferentemente do que foi publicado na nota 8, também da página B3, a informação correta é: “Como resultado, nenhum desses fins de minhas existências passadas me possibilitou alcançar o estado de buda. Pelo fato de eu não ter atingido o estado de buda, os mares e os rios onde eu havia dado minha vida não se tornaram terras do buda” (CEND, v. I, p. 204).






terça-feira, 16 de agosto de 2016

Explanação 4 - Os Cinco Festivais Sazonais

Budismo do Sol

Escrito 4: Os Cinco Festivais Sazonais

Brasil Seikyo, Edição 2334, 06/08/2016, pág. B1-B3 / Encontro com o Mestre

A luta conjunta de mestre e discípulo — o caminho da honra eterna

Escrito 4

Os Cinco Festivais Sazonais

Considere os fatos desse modo e recite Nam-myoho-renge-kyo. Não pode haver dúvida sobre as palavras “desfrutarão paz e segurança na presente existência e boas circunstâncias nas existências futuras”.

A passagem do sutra esclarece perfeitamente que todos os seres celestiais, sem a mínima dúvida, protegerão com afinco os praticantes do Sutra do Lótus. O quinto volume do Sutra do Lótus declara: “Os seres celestiais os guardarão e os protegerão constantemente, dia e noite, em prol da Lei”. Novamente, expressa: “Os jovens filhos dos seres celestiais irão apoiá-lo e protegê-lo. Não será tocado por espadas nem por bastões, e o veneno não lhe causará dano (...)”.

Você (...) afirma que se tornou meu discípulo quando lhe disseram que o Sutra do Lótus infalivelmente se propagaria nos primeiros quinhentos anos dos Últimos Dias da Lei. A relação de mestre e adepto leigo resulta de um laço que se estende pelas três existências. Jamais busque os benefícios da semeadura, maturação e colheita com mais ninguém. Não há possibilidade de esses ditos dourados estarem errados: “As pessoas que ouviram a Lei habitaram aqui e ali, em várias terras do buda, e constantemente renasceram em companhia de seus mestres” e “Se as pessoas permanecerem ao lado dos mestres da Lei, elas entrarão rapidamente no caminho do bodisatva. Quem segue esses mestres e aprende com eles verá budas tão numerosos quanto os grãos de areia do Ganges”. (WND, v. II, p. 374-375)

Introdução

“Por que se tornou escritor?”, “O que é mais importante para você?”, “Como podemos prevenir a violência?” Ao lerem alguns de meus livros infantis em sala de aula, alunos de uma escola de ensino fundamental da Argentina decidiram me escrever formulando essas e muitas outras perguntas (em 1997).

Como sempre acontece quando se trata de crianças, as questões eram francas e diretas. Uma indagou sobre o que faço no dia a dia. Respondi-lhe que dedico a maior parte do meu tempo para incentivar e apoiar os outros. Ajo dessa forma por estar convicto de que a base para a paz reside na felicidade de cada indivíduo, e incentivar pessoas é um sólido primeiro passo para a paz.

Além disso, expressei honestamente que escrevo com a esperança de que minhas palavras possam servir de fonte de encorajamento a alguém em algum lugar.

Outro estudante me perguntou quantos anos eu tinha quando comecei a trabalhar pela paz mundial. Eu lhe respondi contando a história do encontro com meu mestre, segundo presidente da Soka Gakkai, Josei Toda, aos 19 anos. Expliquei que meus esforços em prol da paz se iniciaram no momento em que encontrei meu verdadeiro mestre na vida, que me ensinou o nobre caminho de contribuir com a humanidade.

Fazendo do coração do mestre o meu, devotei incansavelmente a minha vida a essa causa, determinado a construir uma era de paz para deixá-la como legado à próxima geração — o tesouro do futuro.

Quando encontramos um mestre verdadeiro e nos empenhamos como discípulos genuínos, podemos trilhar o curso correto na vida, com transbordante alegria e realização.

Há incontáveis exemplos inspiradores de luta conjunta de mestre e discípulo durante a existência de Nichiren Daishonin — os esforços dele para propagar seu ensinamento correto e os dos discípulos que fervorosamente buscavam e seguiam esse ensinamento.

Vamos estudar, nesta parte o escrito de Daishonin Os Cinco Festivais Sazonais e ratificaremos os profundos laços cármicos que unem mestre e discípulos.


Encontrar-se com o mestre que propaga o ensinamento correto nos Últimos Dias da Lei

Trecho 1 do Gosho

Considere os fatos desse modo e recite Nam-myoho-renge-kyo. Não pode haver dúvida sobre as palavras “desfrutarão paz e segurança na presente existência e boas circunstâncias nas existências futuras” [LSOC, cap. 5, p. 136].

A passagem do sutra esclarece perfeitamente que todos os seres celestiais, sem a mínima dúvida, protegerão com afinco os praticantes do Sutra do Lótus. O quinto volume do Sutra do Lótus declara: “Os seres celestiais os guardarão e os protegerão constantemente, dia e noite, em prol da Lei” [LSOC, cap. 14, p. 245]. Novamente, expressa: “Os jovens filhos dos seres celestiais irão apoiá-lo e protegê-lo. Não será tocado por espadas nem por bastões, e o veneno não lhe causará dano (...)” [Ibidem, p. 249].
Você (...) afirma que se tornou meu discípulo quando lhe disseram que o Sutra do Lótus infalivelmente se propagaria nos primeiros quinhentos anos dos Últimos Dias da Lei. A relação de mestre e adepto leigo resulta de um laço que se estende pelas três existências. (WND, v. II, p. 374-375)

O escrito Os Cinco Festivais Sazonais é uma carta que Nichiren Daishonin enviou a um discípulo chamado Akimoto Taro,1 que vivia no distrito de Imba, província de Shimosa (atual cidade de Shiroi, na província de Chiba).

Pelas observações iniciais de Daishonin neste escrito, podemos concluir que Akimoto Taro enviara uma carta a Nichiren Daishonin na qual descreve sua alegria por encontrar um mestre correto e um ensinamento correto,2 e depois inquire sobre o significado dos cinco festivais sazonais3 realizados costumeiramente naquela época.

Alguns desses tradicionais festivais ainda são celebrados no Japão atualmente, incluindo o Festival das Bonecas (ou o Dia das Meninas), em 3 de março; o Dia das Crianças (ou Dia dos Meninos), em 5 de maio; e o Tanabata (ou Festival das Estrelas), em 7 de julho.

Todos os países possuem suas celebrações. Tais tradições não diferem somente de país para país, mas também mudam com o passar do tempo. O budismo não rejeita festividades acolhidas como parte integrante da vida da localidade; ensina o preceito de se adaptar aos costumes locais4 que afirma que os costumes e as convenções sociais devem ser respeitados e seguidos, contanto que não contradigam os ensinamentos do budismo ou interfiram na consecução do estado de buda.

Com base nisso, Nichiren Daishonin escreve: “Em primeiro lugar, ao ponderarmos sobre a ordem dos cinco festivais sazonais, verificamos que correspondem à ordem dos cinco ideogramas do Myoho-renge-kyo” (WND, v. II, p. 374).

A essência dos cinco festivais sazonais está contida nos cinco ideogramas do Myoho-renge-kyo, a Lei que permeia todos os fenômenos. Quando baseamos nossa vida na Lei Mística, podemos desfrutar e celebrar eventos sazonais, inclusive o Ano-Novo, da maneira mais positiva e significativa possível e passar a ter naturalmente a vida mais feliz e saudável. Essa é a forma de desfrutar plenamente nossa existência presente e experimentar um estado de vida maravilhoso também na próxima.

Os seres celestiais protegerão os praticantes do Sutra do Lótus

Nichiren Daishonin garante que aqueles que abraçam os cinco ideogramas do Myoho-renge-kyo sempre serão protegidos e apoiados, durante todas as quatro estações, dia e noite, por essas grandes divindades celestiais, como Brahma e Shakra.

Nessa parte, ele cita duas passagens do capítulo “Práticas Pacíficas” (14º) do Sutra do Lótus. Primeira, “Os seres celestiais os guardarão e os protegerão constantemente, dia e noite, em prol da Lei” (LSOC, cap. 14, p. 245). Isso foi demonstrado inquestionavelmente durante a existência de Daishonin, e é um fato que os membros da Soka Gakkai desde os primórdios da organização vêm experimentando e evidenciando de forma efetiva na própria vida.

Segunda, “Os jovens filhos dos seres celestiais irão apoiá-lo e protegê-lo. Não será tocado por espadas nem por bastões, e o veneno não lhe causará dano” (Ibidem, p. 249). Essas palavras atestam que por mais que os praticantes do Sutra do Lótus possam ser atacados ou perseguidos, as forças positivas do universo os protegerão integralmente.

Ao concluir sua resposta, Nichiren Daishonin incentiva Akimoto Taro a recitar Nam-myoho-renge-kyo no ensejo de cada um dos cinco festivais sazonais, assim como faz em outras ocasiões, e a “alcançar o caminho” (WND, v. II, p. 375), ou seja, consolidar um estado de total realização.6

Mestre e discípulo — laço que se estende pelas “três existências”

“A relação de mestre e adepto leigo resulta de um laço que se estende pelas três existências” (WND, v. II, p. 375), escreve Daishonin, afirmando que o vínculo entre mestre e discípulo é eterno. Eles não se tornaram mestre e discípulo pela primeira vez nesta existência; estão ligados por um juramento que abarca as “três existências” — passado, presente e futuro. Ao tomar conhecimento desse laço eterno, Akimoto Taro deve ter se emocionado e se alegrado profundamente.

O presidente fundador da Soka Gakkai, Tsunesaburo Makiguchi, sublinhou essa passagem em seu exemplar dos escritos de Nichiren Daishonin. Ela é extremamente importante por enunciar um conceito que representa o âmago do Budismo de Nichiren Daishonin e o espírito da Soka Gakkai.

O budismo é um ensinamento de mestre e discípulo. Sem a relação mestre-discípulo, a realização do kosen-rufu, a concretização da felicidade de toda a humanidade, seria impossível. O mestre está determinado a transmitir aos discípulos o estado de vida do Buda, o de ajudar a libertar as pessoas do sofrimento. Os discípulos assumem para si o modo de vida do mestre, buscando atingir nesse processo o mesmo elevado estado.

Quando surgir um grupo de pessoas comuns que lutem unidas ao seu mestre como um só corpo, elas abrirão o caminho para elevar não apenas o estado de vida de cada uma, mas para transformar o destino da humanidade.

O mestre se empenha para guiar os discípulos ao mesmo estado de vida que ele alcançou; os discípulos tentam viver de acordo com o exemplo do mestre. Lutar juntos com um compromisso comum constitui a essência da unicidade de mestre e discípulo.

E esse laço entre mestre e discípulos não se limita a esta vida. O Sutra do Lótus ensina claramente que esse vínculo perdura pelas “três existências”.

O Sutra do Lótus se concentra particularmente em ajudar os seres vivos a atingir a iluminação durante os Últimos Dias da Lei, uma era de conflito7 na qual as pessoas se tornarão alienadas do ensinamento correto do budismo, levando-o a se obscurecer e se perder na escuridão e fazendo a escuridão e a ignorância predominarem. No entanto, numa época como essa, ainda existem aqueles que buscam sinceramente o ensinamento correto. Encontrando um mestre correto que exponha o ensinamento correto, eles dedicam a vida ao lado do mestre com o mesmo juramento e compromisso abnegado.

O laço que esses discípulos compartilham com o mestre não se limita a esta existência, mas perdura do distante passado ao eterno futuro. Incorporando o mesmo comportamento compassivo do Buda em suas ações, eles cumprem sua missão fundamental como bodisatvas da terra. Consequentemente, ativam nas profundezas de sua vida um estado originalmente inerente nas três existências — o estado de buda. Não há modo de vida mais nobre ou mais maravilhoso.

Publicado em agosto de 2015 na revista Daibyakurenge.

Notas

1- Akimoto Taro: Também conhecido como Akimoto Taro Hyoe-no-jo. Seguidor leigo de Nichiren que vivia no distrito de Imba, província de Shimosa, Japão. Pouco se sabe sobre ele, mas aparentemente mantinha amizade com Soya Kyoshin e Ota Jomyo, seguidores leigos de Daishonin e moradores da mesma região. Nesta carta, Daishonin afirma: “Quanto aos detalhes, expliquei a questão a Soya; portanto, converse com ele quando tiver oportunidade” (WND, v. II, p. 374). E outra carta para Ota Jomyo, Daishonin expressa: “Expliquei questões referentes à doutrina em detalhes na resposta que escrevi para Akimoto Taro Hyoe-no-jo. Por favor, leia o que apontei lá (Ibidem, p. 874).

2- Nichiren Daishonin escreve: “Analisei cuidadosamente a sua carta. Nela você afirma que estava preocupado acerca de que ensinamento seria melhor propagar nos primeiros quinhentos anos do Últimos Dias da Lei. E que, ao encontrar a instrução do venerável Nichiren e ouvir que se deve propagar somente o daimoku do Sutra do Lótus, decidiu se tornar um de meus discípulos” (WND, v. II, p. 374).

3- Os cinco festivais sazonais: Festividades adotadas pela corte imperial japonesa em épocas antigas, incorporando costumes da China e refletindo tradições sazonais japonesas. Ocorriam na primeira semana do primeiro mês, no terceiro dia do terceiro mês, no quinto dia do quinto mês, no sétimo dia do sétimo mês e no nono dia do nono mês. Nesses eventos, realizavam-se cerimônias e preparavam-se pratos especiais na celebração. No calendário moderno acontecem no dia 7 de janeiro (Festival de Ano-Novo), no dia 3 de março (Festival das Meninas), no dia 5 de maio (Festival dos Meninos), no dia 7 de julho (Festival das Estrelas) e no dia 9 de setembro (Festival dos Crisântemos).

4- Preceito de se adaptar aos costumes locais (zuiho bini, em japonês): Um preceito budista que afirma que, no tocante a questões que o Buda não permitiu ou proibiu expressamente, a pessoa pode agir segundo os costumes locais, contanto que os princípios fundamentais do budismo não sejam violados. O preceito de se adaptar aos costumes locais foi empregado quando o budismo seguiu para várias regiões com diferentes culturas, usos e costumes, climas e outros aspectos humanos e naturais. Embora essa orientação não proíba nem prescreva nenhum comportamento específico, é descrita como preceito.

5- Explicando o significado da passagem “Os jovens filhos dos seres celestiais irão apoiá-lo e protegê-lo. Não será tocado por espadas nem por bastões, e o veneno não lhe causará dano” (LSOC, cap. 14, p. 249), Daishonin escreve nesta carta que os “seres celestiais” indicam Brahma e Shakra; os Deuses do Sol e da Lua, os quatro grandes reis celestiais e outros semelhantes a eles. A “Lei” refere-se ao Sutra do Lótus. Os “jovens filhos” indicam os sete corpos luminosos, as vinte e oito constelações, Marichi [em sânscrito; Marishiten (em japonês) — deus considerado originariamente como personificação dos raios do sol] e semelhantes. As palavras “Aqueles que se juntam à batalha estão todos nas linhas de frente” correspondem à passagem “Não será tocado por espadas e bastões” (WND, v. II, p. 374-375).

6- Daishonin escreve: “O que estou transmitindo é excepcionalmente importante. Certifique-se de refletir cuidadosamente sobre esses fatos. O sexto volume do Sutra do Lótus expressa: “Nenhuma questão da vida ou do trabalho jamais contraria a verdadeira realidade’. Portanto, mesmo ao comemorar os cinco festivais sazonais, simplesmente recite Nam-myoho-renge-kyo e se empenhe para alcançar o caminho. Explicarei em detalhes em outra ocasião” (WND, v. II, p. 375).

7- Uma era de conflito: Também descrita como uma era de brigas e disputas. Referência à descrição do quinto período de quinhentos anos após a morte do Buda apresentada no Sutra da Grande Compilação, que diz que nesta era — que corresponde aos Últimos Dias da Lei — as escolas budistas rivais brigarão incessantemente entre si e o ensinamento correto de Shakyamuni ficará obscurecido e se perderá.


Budismo do Sol
Escrito 4: Os Cinco Festivais Sazonais

Brasil Seikyo, Edição 2335, 13/08/2016, pág. B1 / Encontro com o Mestre

A luta conjunta de mestre e discípulo ­— o caminho da honra eterna

Continuação do escrito 4

Trecho 2 do Gosho

Jamais busque os benefícios da semeadura, maturação e colheita com mais ninguém. Não há possibilidade de esses ditos dourados estarem errados: “As pessoas que ouviram a Lei habitaram aqui e ali, em várias terras do buda, e constantemente renasceram em companhia de seus mestres” e “Se as pessoas permanecerem ao lado dos mestres da Lei, elas entrarão rapidamente no caminho do bodisatva. Quem segue esses mestres e aprende com eles verá budas tão numerosos quanto os grãos de areia do Ganges” [cf. LSOC, cap. 10, p. 208] (WND, v. II, p. 375).

Os três benefícios da “semeadura, maturação e colheita”

Nichiren Daishonin explica a grande profundidade da relação mestre-discípulo por meio do ensinamento dos três benefícios da “semeadura, maturação e colheita” (WND, v. II, p. 375).1

No Sutra do Lótus, a partir do capítulo “Meios Apropriados” (2º), Shakyamuni apresenta as doutrinas do “verdadeiro aspecto de todos os fenômenos”2 e a “substituição dos três veículos pelo veículo único”3, e também emprega várias parábolas para elucidar seu ensinamento. Em seguida, em benefício de seus discípulos ouvintes da voz, explana a ligação que eles compartilham e por que e como expusera a Lei para eles não apenas naquela existência, mas desde o passado incalculavelmente remoto. Em outras palavras, ele plantou as sementes da iluminação na vida de seus discípulos há incontáveis aeons, cuidou delas por um longo período, ensinando-os e guiando-os de várias maneiras para levá-los à maturação para que agora, por meio de sua pregação do Sutra do Lótus, atinjam a iluminação idêntica à sua, colhendo o fruto do estado de buda e se libertando completamente de todo sofrimento.

Em Carta para Akimoto, também enviada a Akimoto Taro numa ocasião posterior, Daishonin escreve: “A doutrina da semeadura, maturação e colheita compõe o coração do Sutra do Lótus" (WND, v. I, p. 1015). Os três benefícios da “semeadura, maturação e colheita” descrevem um processo vital para se atingir o estado de buda exposto somente no Sutra do Lótus.

Por meio desse ensinamento, Shakyamuni tenta transmitir que seus discípulos não podem esperar atingir o estado de buda por intermédio dos ensinamentos de outro mestre a não ser daquele com quem mantêm uma ligação cármica mais profunda, o mestre que pregou o Sutra do Lótus e plantou a semente do estado de buda na vida deles. Esse mestre é como um habilidoso agricultor que conhece a forma apropriada de cuidar das sementes que ele plantou e zelar por elas até a época da colheita.

Como prova documental do laço eterno de mestre e discípulo apresentado no capítulo “Parábola da Cidade Imaginária” (7º) do Sutra do Lótus, Daishonin cita a passagem: “As pessoas que ouviram a Lei habitaram aqui e ali, em várias terras do buda, e constantemente renasceram em companhia de seus mestres” (LSOC, cap. 7, p. 178).4 Como esse fato demonstra, os mestres da Lei continuam instruindo e guiando seus discípulos pelas “três existências”. Os discípulos buscam e seguem incessantemente o ensinamento de seus mestres, e os mestres apoiam e auxiliam incessantemente seus discípulos. A relação mestre-discípulo do budismo é o laço humano mais belo de todos.

De sua parte, os discípulos não percebem simplesmente que têm estado “na companhia” de seus mestres. Mais que isso, despertam para a luta conjunta — a prática de bodisatva — que vêm empreendendo ao lado de seu mestre existência após existência. Os discípulos passam a adotar um modo de vida fundamentado no reconhecimento de seu verdadeiro eu — distanciando-se da postura passiva de buscar a salvação a partir do mestre e passando a se empenhar ao lado do mestre pelo bem-estar de toda humanidade. Esse é o significado de lutar para cumprir o juramento como bodisatva.

Despertarmos para nossa missão eterna

O presidente Josei Toda nos ensinou sobre o juramento firmado pelos bodisatvas da terra. No processo de sua luta de vida e morte, ele compreendeu nas profundezas de seu ser a passagem “As pessoas que ouviram a Lei habitaram aqui e ali, em várias terras do buda, e constantemente renasceram em companhia de seus mestres” (LSOC, cap. 7, p. 178).

Durante a Segunda Guerra Mundial, o presidente Toda foi perseguido pelas autoridades militaristas japonesas e preso junto com seu mestre, Makiguchi. Dando continuidade à sua luta destemida, na prisão ele leu o Sutra do Lótus com todo o seu ser e despertou para as verdades profundas do budismo. Uma de suas constatações foi a de que buda é a própria vida. Também, durante a recitação de daimoku num momento de ponderação profunda despertou para o seu verdadeiro eu de bodisatva da terra. Também poderíamos dizer que ele despertou para a missão eterna de mestre e discípulo — a missão de realizar o kosen-rufu ou a ampla propagação da Lei Mística. Além disso, obteve a profunda percepção de que o laço de mestre e discípulo é eterno.

Essa é a essência da convicção da Soka Gakkai, o próprio espírito da organização.

Por volta da mesma época em que Toda sensei vivenciava o seu despertar, o professor Makiguchi, que perseverara em sua prática budista na prisão, sem poupar a vida, morria de desnutrição e pela fragilidade decorrente da idade avançada. Ele dera a vida à luta incansável para sustentar o ensinamento e princípios corretos do Budismo de Nichiren Daishonin.

Na terceira cerimônia em memória (segundo aniversário de falecimento) do professor Makiguchi, Josei Toda afirmou:

Em sua vasta e ilimitada compaixão, o senhor permitiu-me acompanhá-lo até mesmo à prisão. Em virtude disso, pude ler com todo o meu ser a passagem do Sutra do Lótus “As pessoas que ouviram a Lei habitaram aqui e ali, em várias terras do buda, e constantemente renasceram em companhia de seus mestres” (LSOC, cap. 7, p. 178). O benefício resultante disso foi vir a ter conhecimento de minha existência anterior como bodisatva da terra e absorver, com a totalidade de minha vida, mesmo uma pequena fração do significado do sutra. Poderia haver felicidade maior do que esta?5

Tsunesaburo Makiguchi e Josei Toda, mestre e discípulo, eram unidos como se fossem um em seu poderoso compromisso na fé de dar até mesmo a vida pela realização do kosen-rufu, o desejo acalentado pelo mestre original deles, Nichiren Daishonin. Toda sensei sobreviveu à provação na prisão, jurou dar continuidade ao trabalho do seu mestre e, ao ser libertado, iniciou a reconstrução da Soka Gakkai e se lançou a uma luta plena e total em prol da expansão do kosen-rufu com base no espírito de unicidade de mestre e discípulo.

A ligação entre mestre e discípulo é eterna. Toda sensei disse que estaria junto do presidente Makiguchi novamente nas existências futuras, e que nós — Josei Toda e seus discípulos — também estaríamos juntos.

Modo correto de vida

No período turbulento que se seguiu à Segunda Guerra Mundial, tive um encontro decisivo em minha vida com meu extraordinário mestre, Josei Toda.

No dia 14 de agosto de 1947, aos 19 anos, participei da minha reunião de palestra na Soka Gakkai. Um amigo havia me convidado alegando se tratar de uma atividade para discutir “filosofia de vida”.

Fazia dois anos desde o fim da guerra. Eu pertencia a um grupo de leitura no qual quase todas as noites meus amigos e eu debatíamos questões como “qual o modo correto de vida?”. Dizíamos uns aos outros que, se houvesse alguém capaz de responder todas as nossas indagações, acataríamos essa pessoa como mestre.

Na reunião de palestra, um homem usando óculos de lentes grossas estava proferindo suas palavras com voz cheia de vida, convicta e animada: “Seja no âmbito individual, familiar ou como nação, a menos que solucionemos nossos problemas em sua essência, com base nesta filosofia budista, não realizaremos progresso algum”. Ele também afirmou: “Quero eliminar a miséria da face da Terra!”.

Esse homem era Josei Toda, e ele estava explanando o tratado de Nichiren Daishonin Estabelecer o Ensinamento Correto para a Pacificação da Terra. Depois de sua preleção e da sessão de perguntas e respostas que se seguiu, ele se dirigiu a mim com uma intimidade calorosa de um velho amigo.

Perguntei-lhe com a franqueza típica dos jovens: “Poderia dizer qual o modo de vida correto?”.

Respondendo com um sorriso de que eu havia feito a pergunta mais difícil de todas, ele abordou a questão com total sinceridade, concluindo: “É excelente meditar sobre qual seria o modo correto de vida, mas empregaria melhor o seu tempo se tentasse praticar o Budismo de Nichiren Daishonin. Você é jovem. Se o fizer, um dia com certeza constatará que está seguindo o caminho correto na vida. Posso lhe dar a minha palavra de que isto é verdade”.

Formulei outras questões que meus amigos e eu estivéramos debatendo, como “o que é um autêntico patriota?”. Também lhe perguntei sobre o Nam-myoho-renge-kyo, que ele havia citado durante a explanação.

Ele respondeu a todas as minhas perguntas com clareza e segurança. Apesar da minha pouca idade, ele falava comigo de igual para igual e era gentil e paciente em suas respostas. Fiquei profundamente comovido e senti intuitivamente que poderia depositar confiança nele.

Dez dias depois, em 24 de agosto de 1947, associei-me à Soka Gakkai. Desde aquela data, 68 anos se passaram até hoje [2015], e pude trilhar um caminho correto e genuíno na vida, exatamente como Toda sensei ensinou.

A gratidão que sinto pelo meu mestre não tem tamanho. Projetando em minha mente a imagem do seu rosto, ainda converso com ele em meu coração todos os dias.

“Seguir os mestres da Lei e aprender com eles”

Retornando à carta que estamos estudando, Daishonin cita em seguida, uma passagem do capítulo “O Mestre da Lei” (10º) do Sutra do Lótus que expressa: “Se permanecer ao lado dos mestres da Lei, entrará rapidamente no caminho do bodisatva. Quem segue esses mestres e aprende com eles verá budas tão numerosos quanto os grãos de areia do Ganges” (LSOC, cap. 10, p. 208).

“Seguir os mestres da Lei e aprender com eles” — isso indica encontrar um mestre na fé e seguir esse mestre e aprender com ele. A relação mestre-discípulo reside na consciência do discípulo.

Sempre pratiquei exatamente como o presidente Toda me instruiu e declarei, sem hesitação, que sou seu discípulo. Quando os negócios dele estavam com problemas, eu o apoiei e o auxiliei, decidido a compartilhar do seu destino. Então, ao assumir como segundo presidente, Toda sensei anunciou seu objetivo de expandir o número de associados da Soka Gakkai para 750 mil famílias durante a sua existência.

Estou certo de que nossa luta conjunta de mestre e discípulo naquela época produziu uma onda crescente de benefícios — nenhum esforço permanece sem recompensa no âmbito da Lei Mística — e abriu o caminho para a Soka Gakkai se tornar uma organização budista realmente mundial.

Quando nos empenhamos como discípulos ao lado do nosso mestre, conseguimos ampliar nosso estado de vida ilimitadamente.

Na luta conjunta de mestre e discípulo, os discípulos se esforçam para desafiar a si mesmos no caminho de sua missão, para triunfar e relatar em seu coração as vitórias ao mestre. Sempre me dediquei seriamente com essa determinação sob a liderança do presidente Toda, e essa determinação se mantém inalterada até hoje.

Distância física não importa na relação mestre-discípulo. Nichiren Daishonin não pôde se encontrar com muitos de seus discípulos pessoalmente em sua existência, inclusive os discípulos camponeses de Atsuhara [dentre os quais três sacrificaram a vida durante a Perseguição de Atsuhara].

Mesmo que mestre e discípulo possam estar distantes fisicamente, o coração deles está sempre ligado e a vida deles vibra em perfeita sintonia, transcendendo o tempo. Nem tempo nem espaço são barreiras que separam mestre e discípulo.

O grande caminho do compromisso compartilhado que brilhará eternamente

Na beleza do laço de mestre e discípulo existe o esplendor da vitória como ser humano. Se o nosso coração estiver unido ao do mestre, podemos alcançar a revolução humana. Se o nosso coração estiver unido ao do mestre, conseguimos realizar o kosen-rufu.

Pelo fato de o nosso coração estar unido ao do mestre, podemos avançar eternamente pelo grandioso caminho da paz e da justiça.

“Se o mestre tiver um bom discípulo, ambos obterão o fruto do estado de buda” (WND, v. I, p. 909), escreveu Daishonin.

O movimento para propagar o ensinamento correto implementado pelos mestres e discípulos do Budismo de Nichiren Daishonin — que prossegue pelas “três existências” — ampliou-se agora para 192 países e territórios. Com certeza, Nichiren Daishonin está aplaudindo nossos esforços de todo coração.

Entramos numa nova era, na qual pessoas do mundo inteiro, de todas as esferas, estão expressando confiança e alta expectativa em relação à nossa nobre rede Soka, alicerçada no espírito de mestre e discípulo.

Aqueles que possuem um mestre na vida jamais ficam num beco sem saída. Eles sempre conseguem abrir o caminho para a vitória. Não existe vida mais honrada.

A epopeia da unicidade de mestre e discípulo perdurará por toda a eternidade. O laço de mestre e discípulo provém do juramento de travar uma luta conjunta pelas “três existências”.

Somos eternos companheiros que, desde o tempo sem início, vêm sustentando a Lei que expressa as ações de todos os budas e bodisatvas. Juntos, continuemos trilhando a grandiosa estrada dos discípulos, dos sucessores e do compromisso conjunto — um caminho que resplandecerá para todo o sempre.

Publicado em agosto de 2015 na revista Daibyakurenge.

1- “Semeadura, maturação e colheita”: Referência às três fases do processo por meio do qual um buda conduz as pessoas à iluminação e que correspondem ao crescimento e desenvolvimento de uma planta. Em primeiro lugar, o Buda planta as sementes da iluminação no coração das pessoas, depois nutre-as de iluminação ajudando as pessoas a praticar a Lei e, por fim, habilita todas as pessoas a manifestar plenamente a condição de vida do estado de buda.

2- “Verdadeiro aspecto de todos os fenômenos”: Verdade ou realidade suprema que permeia todos os fenômenos e não está, de modo algum, separada deles. Por meio da explanação dos “dez fatores”, o capítulo “Meios Apropriados” (2º) do Sutra do Lótus ensina que todas as pessoas são dotadas inerentemente do potencial para ser tornar buda, e esclarece a verdade de que elas podem ativar e manifestar esse potencial.

3- “Substituição dos três veículos pelo veículo único”: Referência à declaração de Shakyamuni no Sutra do Lótus de que os três veículos não são fins em si, embora outros sutras provisórios aleguem o contrário, mas meios apropriados mediantes os quais ele conduz as pessoas ao veículo único do estado de buda. Os “três veículos” são os ensinamentos expostos para os ouvintes da voz, aqueles que despertaram para a causa e bodisatvas, respectivamente. O “veículo único” do estado de buda indica o ensinamento que possibilita que todas as pessoas atinjam o estado de buda e corresponde ao Sutra do Lótus.

4- Nesse capítulo, Shakyamuni revela a relação que ele formou com seus discípulos no passado remoto, quando ele foi o 16º filho, o caçula, de um buda chamado Excelência da Grande Sabedoria Universal. Shakyamuni descreve a vasta extensão de tempo que se passara a partir de então; um período denominado kalpa de partículas de pó de um grande sistema de mundos. Ele narra que há muito tempo ele e cada um de seus quinze irmãos expuseram o Sutra do Lótus que o pai lhes havia ensinado. Os discípulos atuais, explica Shakyamuni, estavam entre aqueles a quem ele havia ensinado o Sutra do Lótus e convertido na ocasião. E aqueles a quem os outros dezesseis filhos ensinaram o Sutra do Lótus também nasceram com seus respectivos mestres em várias terras do buda, onde praticaram o budismo sob instrução deles.

5- Traduzido do japonês. TODA, Josei. Toda Josei Zenshu [Coletânea de Orientações de Josei Toda]. Tóquio: Seikyo Shimbunsha.

segunda-feira, 4 de julho de 2016

Explanação 3 - Aspiração à Terra do Buda

Budismo do Sol

Escrito 3: Aspiração à Terra do Buda

Brasil Seikyo, Edição 2328, 18/06/2016 / Encontro com o Mestre

Kosen-rufu e vida — dedicação a um nobre ideal


O kosen-rufu é o desejo do Buda e o grandioso caminho da esperança da humanidade.

Não há vida mais valiosa e gratificante que aquela devotada à concretização do nobre ideal da paz mundial e da felicidade de todas as pessoas. Este ano [2015] assinala o 70º aniversário do fim da Segunda Guerra Mundial.

Em julho de 1945, diante dos escombros do Japão devastado, pouco antes do término da guerra, meu mestre, Josei Toda [posteriormente, segundo presidente da Soka Gakkai], firmou veemente o juramento de livrar o mundo da miséria e do sofrimento e deu o primeiro passo em seus esforços para propagar a Lei Mística.

A chama desse juramento acendeu a luz da esperança no coração de nós, jovens, um após o outro, inspirando-nos a construir uma nova era de paz. Como discípulos, avançamos na estrada dos nobres ideais que ele havia aberto. Isso marcou o início do magnífico desenvolvimento do kosen-rufu que alcançamos hoje.

Trecho do Gosho

Como deve ter percebido nesses ensinamentos, [o advento da grande Lei] já está diante de nossos olhos. Nos mais de dois mil e duzentos anos desde a morte do Buda, na Índia, na China, no Japão, e em todo o Jambudvipa [o grande mestre Tiantai declarou]: “Vasubandhu e Nagarjuna perceberam claramente a verdade em seu coração, mas não a transmitiram aos outros. Em vez disso, eles empregaram os ensinamentos do Mahayana provisório, que eram adequados à época”. Tiantai e Dengyo fizeram comentários gerais sobre isso; porém, deixaram a propagação para o futuro. A Lei secreta – a única grande razão do advento dos budas – será propagada pela primeira vez nesta nação. Quem, a não ser Nichiren, poderia cumprir essa tarefa? (...) O senhor não deve, de forma alguma, lamentar meu exílio. Nos capítulos “Encorajamento à Devoção” e “Bodisatva Jamais Desprezar” consta [que o devoto do Sutra do Lótus enfrentará perseguições]. A vida é limitada; não devemos poupá-la. O que, afinal, devemos aspirar é à terra do buda. (CEND, v. I, p. 222 - 223)

Jovens constroem a nova era

Julho é o mês de fundação da Divisão dos Jovens (DJ). [Tanto a Divisão Masculina de Jovens (DMJ) como a Divisão Feminina de Jovens (DFJ) foram instituídas pelo presidente Josei Toda em julho de 1951.]

No dia 11, de 1951, na reunião de fundação da DMJ, o presidente Josei Toda declarou: “O kosen-rufu é a missão que devemos realizar sem falta. Gostaria também que cada um de vocês tivesse a consciência de sua nobre participação neste empreen­dimento. Na história recente do Japão, os jovens foram a força propulsora à Restauração Meiji [em 1868]. Durante a existência de Nichiren Daishonin também, a maioria de seus discípulos era de jovens”.1 Desse modo, ele salientou que os jovens sempre são motivadores e agentes, os autores de uma nova era.

Na reunião de fundação da DFJ no dia 19 de julho do mesmo ano, ele disse: “Desejo que cada uma de vocês, sem exceção, se torne feliz. Até hoje, a história da mulher se resume a infortúnio e sofrimento nas mãos do destino. Como tiveram a boa sorte de abraçar a fé no Budismo de Nichiren Daishonin na juventude, vocês não precisam mais aceitar esse destino”.

Atualmente, um fluxo constante de rapazes e moças que assumiram para si o grande juramento do kosen-rufu está surgindo ao redor do mundo. Quão maravilhado se sentiria o presidente Josei Toda ao observar os vibrantes esforços de tantos jovens bodisatvas da terra trabalhando para promover o nosso movimento em âmbito mundial! Também fico muito feliz por ter dedicado a vida à realização do grande sonho do meu mestre.

Com o espírito de estudar com os jovens, quero discutir alguns trechos do escrito de Nichiren Daishonin que acato com a mais profunda seriedade desde a época da Divisão dos Jovens.

A adversidade é uma honra — o grande caminho do juramento seigan

O trecho citado na página B1 é do escrito Aspiração à Terra do Buda, uma carta enviada a Toki Jonin.2

“A vida é limitada; não devemos poupá-la” (CEND, v. I, p. 223), de acordo com essas palavras, venho me empenhando incansavelmente pelo kosen-rufu, lutando e ultrapassando todas as formas de dificuldades imagináveis para concretizar os nobres ideais do meu mestre.

Trata-se da declaração veemente de Daishonin de que nem as mais implacáveis tempestades de adversidades podem extinguir a chama do grande juramento do Buda — ou melhor, a expressão de sua determinação inabalável de que assim fosse.

Daishonin redigiu essa carta logo depois de chegar a Tsukahara, na Ilha de Sado, onde ficou exilado após a Perseguição de Tatsunokuchi.3 Nela, ele tenta transmitir a seu discípulo que, mesmo em meio àquelas circunstâncias terríveis, seu espírito de luta ardia ainda mais intensamente, e que um momento crucial para o kosen-rufu havia despontado.

Resumindo os eventos que antecederam essa carta: tendo sido sentenciado ao exílio, Daishonin partiu de Echi, província de Sagami (atual cidade de Atsugi, Kanagawa), no dia 10 de outubro de 1271, para o porto de Teradomari, província de Echigo (atual cidade de Nagaoka, Niigata), uma viagem que durou doze dias. Ele então foi obrigado a permanecer por algum tempo aguardando ventos favoráveis para a travessia por mar até a ilha. Pôde finalmente partir no dia 28 de outubro, e chegou a Sanmai-do,4 um pequeno templo que foi seu abrigo em Tsukahara, em Sado, no dia 1º de novembro.

Daishonin escreveu esta carta no dia 23 de novembro — que incide no dia 26 de dezembro no calendário atual, em pleno inverno. Ele retrata as rigorosas condições climáticas de frio intenso do norte do Japão: “No entanto, nos dois últimos meses, desde que cheguei a este local, no norte de Sado, os ventos cortantes sopram sem parar e, embora tenha havido alguns momentos em que a geada e a neve cessaram, não vi a luz do Sol uma única vez aqui. Creio que estou vivenciando os oito infernos gelados”5 (Ibidem, p. 222).

Ele [Daishonin] estava sofrendo terrivelmente em virtude do frio cortante. Além disso, tratado como criminoso, não lhe forneciam alimento suficiente. Aos olhos dos habitantes locais, que não eram capazes de distinguir “o ensinamento budista correto do incorreto” (Ibidem), Daishonin era meramente um sacerdote perverso que criticava as escolas budistas. De fato, ele vivia sob constante risco de perder a vida nas mãos de prováveis assassinos.

No fim desta carta, Daishonin expressa: “É impossível descrever tais assuntos por escrito” (Ibidem, p. 223). Por isso, ele pede a seus discípulos que busquem informações mais detalhadas sobre a situação com os jovens sacerdotes que o acompanharam na viagem até Sado e que agora ele os mandava de volta.6 Podemos pressupor que as condições eram tão severas que Daishonin se viu obrigado a fazê-los retornarem.

Entretanto, a mente de Daishonin se mantinha serena pela imensa alegria de dedicar a vida à Lei Mística.

Para permitir que seus discípulos entendessem seu estado mental, Daishonin recomenda-lhes que ponderem profundamente o que ele escrevera numa correspondência anterior, Carta de Teradomari,7 redigida pouco antes de sua travessia para Sado. Nela, ele declara que é o devoto do Sutra do Lótus e, com certeza, receberia a proteção de incontáveis bodisatvas de todo o universo (cf. CEND, v. I, p. 218).

Daishonin considerava que adversidades eram uma honra para os praticantes do Sutra do Lótus. Ele se esforçou para desenvolver discípulos genuínos por meio do exemplo de sua própria conduta, convocando-os a devotar a vida à missão de concretizar do kosen-rufu.

A Lei secreta – a única grande razão do advento dos budas

Nesta carta, Daishonin examina a história do budismo e escreve que grandes mestres budistas dos Primeiros e Médios Dias da Lei como Nagarjuna, Vasubandhu, Tiantai e Dengyo8 expuseram e propagaram o ensinamento correto do budismo que se adequava às respectivas épocas. Nela o buda também explica que eles não ensinaram sobre “A Lei secreta – a única grande razão do advento dos budas [neste mundo]” (Ibidem, p. 222), o Nam-myoho-renge­-kyo, a Lei fundamental por meio da qual todas as pessoas podem atingir a iluminação.

Daishonin prossegue, afirmando: “A Lei secreta – a única grande razão do advento dos budas – será propagada pela primeira vez nesta nação. Quem, a não ser Daishonin, poderia cumprir essa tarefa?” (Ibidem). Trata-se de uma sublime afirmação de que ele é a pessoa que está propagando a grande Lei que poderá livrar todas as pessoas dos Últimos Dias da Lei do sofrimento em seu nível mais fundamental. Embora pudesse estar confinado pelas leis do país, espiritualmente era livre, de fato, um rei leão, um grande campeão da vida.

Como Buda dos Últimos Dias da Lei, Daishonin levantou-se só e iniciou a propagação do ensinamento correto, abrindo o caminho para que a Lei fosse amplamente aceita e praticada no futuro. O kosen-rufu se desenrolou exatamente como ele enunciou posteriormente em Saldar as Dívidas de Gratidão: “Se a compaixão de Nichiren for realmente grande e abrangente, o Nam-myoho-renge­-kyo se propagará por dez mil anos e mais, por toda a eternidade” (CEND, v. I, p. 770).

Quando os discípulos perceberam o majestoso estado de vida de Daishonin, qualquer ansiedade e incerteza que pudessem guardar no coração deve ter se dissipado e substituído pelo radiante sol da esperança do kosen-rufu.

Quando nos dedicamos ao grande juramento pelo kosen-rufu, nossa vida se expande ilimitadamente. Atingimos um estado de vida amplo, que nos permite avaliar claramente os problemas e as dificuldades que estamos enfrentando e vencer.

Por essa razão, Daishonin escreve na carta: “Não deve, de forma alguma, lamentar” (Ibidem, p. 223). Essas palavras de encorajamento se destinam a todos os seus discípulos, que, na época, enfrentavam perseguições tão ferozes a ponto de, posteriormente, ele escrever [em Resposta a Niiama] “entre as 999 pessoas de cada 1.000 que abandonaram a fé” (Ibidem, p. 490).

Prosseguindo, ele afirma em Aspiração à Terra do Buda: “Nos capítulos ‘Encorajamento à Devoção’ e ‘Bodisatva Jamais Desprezar’ consta [que o devoto do Sutra do Lótus enfrentará perseguições]” (Ibidem, p. 223). Sua inferência aqui é que, para um genuíno devoto, ou praticante, é um motivo de honra enfrentar a perseguição dos três poderosos inimigos (leigos arrogantes, sacerdotes arrogantes e falsos sábios arrogantes) e ser atacado com bastões e pedras (como o bodisatva Jamais Desprezar), conforme o que se descreve, respectivamente, nos capítulos “Encorajamento à Devoção” (13º) e “Jamais Desprezar” (20º) do Sutra do Lótus.

Desse modo, também estava louvando seus discípulos, que vivenciavam as mesmas atribulações e perseguições que ele, sugerindo que também eram devotos do Sutra do Lótus.

Haverá ocasiões em que nos depararemos com críticas ou ataques injustos por praticarmos o Budismo de Nichiren Daishonin, mas todas as adversidades que experimentamos em prol do kosen-rufu são provas de que estamos conduzindo a nossa vida de acordo com o Sutra do Lótus, ou seja, de que estamos seguindo o grandioso caminho para atingir o estado de buda.

As batalhas com as quais nos defrontamos na vida real fazem parte de nossa prática budista para o nosso desenvolvimento espiritual, possibilitando que realizemos nossa revolução humana e alcancemos o estado de buda. Se orarmos com esse espírito e convicção, a coragem de que necessitamos para enfrentar todos esses desafios emanará de dentro de nós. Isto, em si, é o significado de manifestar a condição de vida do estado de buda.

A dedicação ao kosen-rufu é o modo de vida mais nobre que existe como ser humano.

Publicadas em julho de 2015 na revista Daibyakurenge.

NOTAS:

1. Traduzido do japonês. Toda, Josei. Toda Josei Zenshu [Coletânea das Obras de Josei Toda]. Tóquio: Seikyo Shimbunsha, v. 3, p. 434, 1983.

2. Toki Jonin (1216–1299): Seguidor leigo de Daishonin. Morava em Wakamiya, no distrito Katsushika, na província de Shimosa (atualmente, parte da província de Chiba) e era um influente samurai a serviço do senhor feudal de Chiba, comandante militar da província. Ele se converteu ao ensinamento de Daishonin aproximadamente em 1254, ano subsequente ao qual Nichiren Daishonin estabeleceu o ensinamento do Nam-myoho-renge-kyo

no templo Seicho-ji, em Awa. Também conhecido como o sacerdote leigo Toki, ele foi destinatário de muitos escritos de Daishonin, entre os quais O Objeto de Devoção para Observar a Mente, a maior parte preservada com esmero.

3. Perseguição de Tatsunokuchi: Fracassada tentativa orquestrada por personalidades importantes do governo de decapitar Daishonin sob o manto da noite na praia de Tatsunokuchi, nas cercanias de Kamakura, no dia 12 de setembro de 1271.

4. Em As Ações do Devoto do Sutra do Lótus, Daishonin descreve Sanmai-do: “Era um único cômodo sustentado por quatro estacas, num terreno onde abandonavam cadáveres, semelhante a Rendaino, em Quioto. Nesse lugar, não havia sequer uma estátua do Buda. As tábuas do telhado eram muito separadas umas das outras, e as paredes, cheias de buracos. A neve se empilhava dentro da cabana e nunca derretia. Ali passei meus dias, cobrindo-me com um manto feito de palha e me deitando sobre uma pele de animal. À noite, chovia granizo, nevava e relampejava sem parar. Mesmo durante o dia, o sol raramente brilhava. Era um lugar desolador de se viver” (WND, v. I, p. 769).

5. Oito infernos gelados: Infernos que, segundo afirmava a antiga cosmologia indiana, situavam-se abaixo do continente de Jambudvipa, próximos aos oito infernos escaldantes. Aqueles que residem lá são atormentados pelo frio insuportável.

6. Daishonin escreve: “Estou enviando de volta alguns dos jovens sacerdotes. Eles poderão lhe contar sobre esta província e sobre as circunstâncias em que estou vivendo” (CEND, v. I, p.223).

7. Carta de Teradomari foi endereçada a Toki Jonin e escrita em 22 de outubro de 1271, enquanto Daishonin se encontrava em Teradomari, na província de Echigo, a caminho de seu local de exílio em Sado. Citando passagens dos Sutras do Lótus e do Nirvana, Daishonin descreve como Shakyamuni foi atacado e perseguido por não budistas durante sua existência, e traça um paralelo entre aqueles não budistas e os sacerdotes budistas de sua época, bem como entre Shakyamuni e ele próprio.

8. Nagarjuna foi um filósofo budista do Mahayana, que viveu na Índia entre os séculos 2 e 3. Seus textos exerceram forte influência sobre o budismo na China e no Japão. Vasubandhu foi outro grande filósofo budista indiano, atuante no século 4. Tiantai (538–597), também conhecido como Chih-i, propagou o Sutra do Lótus na China e estabeleceu a doutrina “três mil mundos num único momento da vida”. Suas preleções foram compiladas em obras como Profundo Significado do Sutra do Lótus, Palavras e Frases do Sutra do Lótus e Grande Concentração e Discernimento. Dengyo (767–822), também conhecido como Saicho, foi o fundador da escola Tendai (Tiantai) no Japão. Ele viajou para a China, onde dominou os ensinamentos de Tiantai.


Budismo do Sol

Escrito 3: Aspiração à Terra do Buda

Brasil Seikyo, Edição 2329, 25/06/2016 / Encontro com o Mestre

Kosen-rufu e vida — dedicação a um nobre ideal

Trecho do Gosho

Como deve ter percebido nesses ensinamentos, [o advento da grande Lei] já está diante de nossos olhos. Nos mais de dois mil e duzentos anos desde a morte do Buda, na Índia, na China, no Japão, e em todo o Jambudvipa [o grande mestre Tiantai declarou]: “Vasubandhu e Nagarjuna perceberam claramente a verdade em seu coração, mas não a transmitiram aos outros. Em vez disso, eles empregaram os ensinamentos do Mahayana provisório, que eram adequados à época”. Tiantai e Dengyo fizeram comentários gerais sobre isso; porém, deixaram a propagação para o futuro. A Lei secreta – a única grande razão do advento dos budas – será propagada pela primeira vez nesta nação. Quem, a não ser Nichiren, poderia cumprir essa tarefa? (...) O senhor não deve, de forma alguma, lamentar meu exílio. Nos capítulos “Encorajamento à Devoção” e “Bodisatva Jamais Desprezar” consta [que o devoto do Sutra do Lótus enfrentará perseguições]. A vida é limitada; não devemos poupá-la. O que, afinal, devemos aspirar é à terra do buda. (CEND, v. I, p. 222-223)

A importância de devotar a vida à Lei

No fim desta carta, dirigindo-se a seus discípulos que lutavam bravamente em meio a grandes adversidades, Daishonin lhes assegura: “A vida é limitada; não devemos poupá-la. O que, afinal, devemos aspirar é à terra do buda” (CEND, v. I, p. 223).

Tanto ele como seus discípulos enfrentavam uma situação de risco de perder a vida, então Daishonin clama a eles que vivam uma existência dedicada ao budismo e aspirem à terra eterna do buda [no contexto, indica o estado de buda] sem poupar a vida. Tais palavras não devem, portanto, ser interpretadas com o sentido de que Daishonin estivesse aconselhando seus discípulos a desperdiçar a vida deles.

Todos que nascem um dia têm de morrer. A que dedicaremos o limitado tempo de que dispomos neste mundo? Em Carta de Sado, Daishonin escreve: “[Os seres humanos] geralmente se sacrificam por questões superficiais e seculares; contudo, raramente o fazem pelos preciosos ensinamentos do Buda. Assim, é natural que não atinjam o estado de buda” (Ibidem, p. 317).

Pelo fato de nossa vida ser infinitamente preciosa, a maneira como vivemos possui extrema relevância.

A hora da morte chega para todos. Quando enfrentamos essa solene realidade, percebemos a importância de tornar cada momento de nossa vida o mais significativo e valioso possível.

O tesouro do coração brilha eternamente

Daishonin expressa [em Os Três Tipos de Tesouro]: “É muito raro nascer como ser humano” e “Viver como ser humano é difícil” (WND, v. I, p. 851). Precisamente por essa razão, ele nos ensina, por meio da metáfora dos três tipos de tesouros, a viver da maneira mais proveitosa e relevante possível. Ele explica que enquanto os tesouros do cofre (riqueza material) e do corpo (saúde e habilidades práticas) duram apenas uma única existência, o tesouro do coração é a fonte de riqueza genuína e indestrutível. Para agregarmos um significado eterno à nossa vida, é importante acumularmos o tesouro do coração. Conforme Daishonin nos indica: “O tesouro do coração é o mais valioso de todos” (Ibidem).1

Descobrindo o valor verdadeiro e duradouro, que está vinculado ao “eterno”, devemos viver nossa presente existência à plenitude. E a religião desempenha papel crucial para se desenvolver essa perspectiva.

No contexto da eternidade, uma simples existência humana pode representar apenas um momento efêmero, mas uma filosofia religiosa genuína nos permite criar valores eternos nesse simples instante.

“No fim, ninguém pode escapar da morte” (WND, v. I, p. 1003), afirma Daishonin [em O Portal do Dragão]. Essa é a realidade diante de todos nós. Assim sendo, por que não devotar nossa vida a criar valor ilimitadamente nos dedicando ao grande juramento pelo kosen-rufu e para assim fazermos parte de algo maior, como uma gota de orvalho que se junta ao oceano ou uma partícula de poeira que se funde com a terra?

Enfrentar os maus amigos pelo povo

Na carta O Problema a Ser Ponderado Dia e Noite enviada a Toki Jonin, Daishonin escreve a famosa expressão “se arrependerem durante os próximos dez mil anos”. Essas palavras fazem parte de um trecho, descrito a seguir, que o presidente fundador da Soka Gakkai, Tsunesaburo Makiguchi, sublinhou em seu exemplar dos escritos de Daishonin: “(...) Isso demonstra, meus seguidores, que seria melhor reduzirem seu sono durante a noite e suas diversões durante o dia para ponderarem sobre isso! Não passem a vida em vão para depois se arrependerem durante os próximos dez mil anos” (CEND, v. I, p. 650).

Daishonin brada: “Meus seguidores!”. E o que seria esse pedido para todos os seus discípulos “ponderarem reduzindo as horas de sono”? Sua mensagem, em suma, é para não se deixarem enganar pela aparência externa dos “sacerdotes de alta posição que, embora mantenham os preceitos, alimentam visões distorcidas” (Ibidem). Na realidade, esses sacerdotes, apesar de serem respeitados pelo público por seu comportamento aparentemente exemplar, são, de fato, corruptos e interesseiros. São “más companhias”2 ou influências negativas, que não conseguem compreender a verdade fundamental do budismo e estão, efetivamente, extraviando as pessoas.

Como exemplos concretos de “sacerdotes de alta posição que, embora mantenham os preceitos, alimentam visões distorcidas”, Daishonin cita Kobo,3 Jikaku4 e Chisho5 e os discípulos e sucessores deles. Em especial, Jikaku e Chisho, como sacerdotes priores da escola Tendai (Tiantai), no Japão [que originalmente se baseava­ no Sutra do Lótus], deveriam ter protegido os ensinamentos do fundador da escola — o grande mestre Dengyo —, os propagado e conduzido as pessoas à felicidade. Mas pouco tempo após a morte de Dengyo (em 822), eles abandonaram o ensinamento correto do budismo, desencaminharam as pessoas e fizeram com que a calúnia contra a Lei proliferasse pelo país todo.

Em contraste com essa conduta, Daishonin, seguindo a linhagem do devoto do Sutra do Lótus, Shakyamuni, Tiantai e Dengyo,6 dedicou-se, sem se poupar, para evitar que o ensinamento correto perecesse, para proteger a Lei e para saldar sua dívida de gratidão.

É possível sentir a força do rugido de leão de Nichiren Daishonin como se dissesse “se forem meus seguidores, ponderem profundamente sobre essa verdade e herdem esse coração de justiça!”.

A Soka Gakkai herdou o Budismo de Nichiren Daishonin

Se aqueles que deveriam proteger o ensinamento correto do budismo não o fizerem, ele será destruído e se perderá.

Tsunesaburo Makiguchi e Josei Toda, primeiro e segundo presidentes da Soka Gakkai, pronunciaram-se sobre o que era justo e correto no que se refere ao budismo, exatamente como Daishonin ensinou, e, em decorrência disso, foram presos pelas autoridades militaristas do Japão.

Em contrapartida, o clero da Nichiren Shoshu, temendo a perseguição do governo, cedeu, comprometendo-se a incorporar elementos do xintoísmo estatal. O Sr. Makiguchi, porém, sustentou o ensinamento e as doutrinas corretas do Budismo de Nichiren Daishonin até o fim, declarando: “O que lamento não é a ruína de uma escola, mas a destruição de um país inteiro diante de nossos olhos. Receio a tristeza terrível que isso traria a Daishonin”.

O espírito de Daishonin pulsa vibrantemente no coração dos mestres e discípulos Soka, que estão dando continuidade à disposição de proteger a Lei e à dedicação abnegada em prol do budismo.

Como mencionado na frase do escrito O Problema a Ser Ponderado Dia e Noite, “em vão”, como Daishonin adverte seus discípulos, neste contexto significa se esquecer da missão fundamental na vida e se deixar levar por questões irrelevantes, vivendo uma existência a esmo e sem um propósito.

“A vida é limitada; não devemos poupá-la”; “Não passem a vida em vão para depois se arrependerem durante os próximos dez mil anos!” — a profundidade com que acatamos essas palavras em nosso coração determina a profundidade de nossa existência.

Quando jovem, meu médico me disse que eu provavelmente não viveria para festejar meu aniversário de 30 anos. Eu tinha a clara consciência de como minha vida poderia ser limitada. Por isso, lutava com todas as minhas forças pelo kosen-rufu. Empenhava-me de corpo e alma, determinado a ser um exemplo para as gerações futuras, um discípulo autêntico em total união de espírito com meu mestre, de modo que não tivesse nenhum arrependimento, independentemente de quando a morte pudesse bater à minha porta.

Estou certo de que, por ter me devotado à minha prática budista com essa disposição, recebi o benefício de prolongar minha vida por meio da dedicação à Lei Mística. Incontáveis associados da SGI relatam alegres experiências de vitória sobre a doença e de êxito em prolongar a vida mediante a prática budista. Todos demonstraram provas de como é maravilhoso seguir de acordo com os ditos dourados de Daishonin.

Uma vida consagrada à missão de cumprir o grande juramento do kosen-rufu compartilhando compassivamente a Lei Mística com as pessoas, infalivelmente produzirá um estado de suprema alegria e contentamento.

O filósofo romano da antiguidade Marco Aurélio declarou: “Não vivas como se ainda tivesses 10 mil anos de vida. O destino está a um palmo; torne-se bom enquanto ainda possui vida e força”.7

Vivamos, portanto, este momento com a máxima plenitude. Se falharmos em agir negligenciando esforços, não deixaremos atrás de nós nada significativo. Continuemos nos esforçando vigorosamente em prol do kosen-rufu, valorizando a Lei e não poupando nenhum esforço. Se dedicarmos esta preciosa existência ao ato de compartilhar o budismo com as outras pessoas, jamais teremos motivo para “nos arrependermos durante os próximos dez mil anos” (cf. CEND, v. I, p. 650).

Naturalmente, não poupar nenhum esforço é diferente de cometer exageros. Devemos agir com sabedoria e cuidar de nossa saúde, para que possamos colocar nossa vida a serviço da propagação dos ideais do Budismo de Nichiren Daishonin. Viver mesmo um único dia a mais para que possamos contribuir para o kosen-rufu é o maior tesouro que pode existir.

Ter uma vida realmente realizada significa dar o máximo de si a cada dia em prol da inigualável Lei Mística, da felicidade das outras pessoas e pelo bem da sociedade.

Ampliando nossa rede pelo mundo

Cinquenta e cinco anos se passaram desde que sucedi ao presidente Josei Toda e passei a me empenhar como terceiro presidente da Soka Gakkai (em 3 de maio de 1960). Ao lado dos membros da organização, amigos do “tempo sem início”, espalhei no mundo as sementes da Lei Mística em prol da paz.

Bodisatvas da terra, todos abraçando o mesmo grande juramento pelo kosen-rufu, levantamo-nos um após o outro construindo a rede de felicidade e da paz da SGI, que hoje abrange 192 países e territórios.

Acalentando o sonho do kosen-rufu mundial, os pioneiros da nossa organização lutaram ao meu lado, seguindo em frente diante de incontáveis obstáculos. Hoje, esses membros expressam gratidão e satisfação por terem podido viver como integrantes da SGI e testemunhar o espetacular desenvolvimento de nosso movimento nesta existência. Eles afirmam não ter arrependimento algum e que nenhum de seus esforços foi em vão.

Entre os representantes que estiveram no Japão recentemente para participar do Curso de Aprimoramento de Primavera da SGI [em maio de 2015] havia vários filhos e filhas dos pioneiros com quem me encontrei em minha primeira viagem ao exterior. É muito gratificante saber que o juramento pelo kosen-rufu está sendo transmitido de uma geração para outra.

A vida de uma pessoa é limitada. Mas suas orações, seu juramento ou compromisso, seus esforços em prol do kosen-rufu fluem eternamente através das gerações. A boa sorte que acumulamos por meio da fé e o benefício que obtemos ensinando o budismo a outras pessoas são imperecíveis. Os esforços que efetuamos com base no grande juramento de nos dedicar ao kosen-rufu e à felicidade do próximo tornam-se fonte de infinita boa sorte e benefícios tanto para nós como para aqueles à nossa volta, com quem compartilhamos uma ligação profunda.

Uma vida nobre, experimentada com orgulho e satisfação de ter se dedicado à Lei Mística com certeza inspirará outras e iluminará o futuro. Um empreendimento ao qual devotamos toda a nossa energia e paixão continuará resplandecendo pela posteridade. Se consagrarmos nossa vida ao kosen-rufu, poderemos atingir um estado de felicidade que perdurará eternamente pelas “três existências” — passado, presente e futuro.

Nossa vida, dedicada ao kosen-rufu, é repleta da alegria proveniente do estado de buda, o supremo senso de orgulho de ser bodisatvas da terra e tomar parte na gloriosa façanha do kosen-rufu mundial. Ainda estamos nos estágios iniciais do magnífico empreendimento que prosseguirá pela eternidade. Nossa odisseia da esperança apenas começou. Contemplar o grandioso desenvolvimento que sucederá daqui a cinquenta ou cem anos é uma perspectiva emocionante.

Por essa razão, gostaria de dizer aos jovens: “Vençam os desafios de sua vida diária com coragem e perseverança. A maneira de fazer isso é se levantarem e agirem para cumprir sua missão de propagar a Lei Mística no local onde vocês se encontram neste exato instante”.

Uma existência
vitoriosa dedicada
ao grande juramento
pelo kosen-rufu

Quando despertamos para nossa missão como bodisatvas da terra, conseguimos desenvolver maior profundidade e força, somos capazes de disseminar livremente a compreensão sobre o budismo e produzir valores perenes.

Como membros da Divisão dos Jovens, é importante firmar o juramento de “o kosen-rufu é minha vida”, e, então seguir adiante em busca de seus ideais. Desse modo, poderão desfrutar uma existência significativa, livre de quaisquer arrependimentos.

O juramento selado na juventude será a luz interior que os guiará enquanto viverem. Portanto, jamais, em circunstância alguma, devem perder essa luz.

Concluindo esta explanação, gostaria de clamar aos jovens e a todos que se empenham ao lado deles: “Prossigamos avançando em luta conjunta, realizando a mais valiosa jornada da vida e do kosen-rufu, e tenhamos uma existência triunfante, dedicada à concretização de nobres ideais!”.

Publicadas em julho de 2015 na revista Daibyakurenge.

NOTAS:

1. Em Os Três Tipos de Tesouro, Daishonin escreve: “O tesouro do corpo é mais valioso que aquele guardado no cofre; e o tesouro acumulado no coração é muito mais valioso que o tesouro do corpo. A partir do momento em que o senhor ler esta carta, esforce-se para acumular o tesouro do coração” (WND, v. I, p. 851).

2. Más companhias: Também conhecidas como maus amigos ou maus mestres. Alguém que leva outras pessoas a cair nos maus caminhos, desviando-as em relação ao budismo. Má companhia ilude os demais com ensinamentos falsos para impedir que sigam a prática budista correta.

3. Kobo (jap. Kb; 774–835): Também conhecido como Kukai ou grande mestre Kobo. Fundador da escola japonesa Palavra Verdadeira. Em 804, viajou à China, onde estudou as doutrinas e os rituais dos ensinamentos esotéricos. Após retornar ao Japão, em 806, Kobo dedicou-se à propagação dos ensinamentos esotéricos da Palavra Verdadeira, e construiu vários templos no Monte Koya.

4. Jikaku (jap.; 794–864): Também conhecido como Ennin ou grande mestre Jikaku. Terceiro prior do templo Enryaku-ji. Em 838, viajou à China, onde estudou tanto os ensinamentos de Tiantai como o budismo esotérico. Após retornar ao Japão, assumiu a liderança da escola Tendai e, mais tarde, adicionou elementos esotéricos à doutrina.

5. Chisho (jap. Chish; 814–891) Também conhecido como Enchin ou “grande mestre Chisho”. O quinto prior do Enryaku-ji, principal templo da escola Tendai no Monte Hiei. Em 853, viajou para a China da dinastia Tang, onde estudou as doutrinas de Tiantai e os ensinamentos esotéricos. Quando retornou ao Japão, uniu ambas as doutrinas. Ele também construiu um salão no templo Onjo-ji para a realização da cerimônia esotérica de unção.

6. Em O Devoto do Sutra do Lótus Enfrentará Perseguições, Daishonin escreve: “Durante a época do Buda e nos dois mil anos dos Primeiros e Médios Dias da Lei que se seguiram após a morte dele, houve somente três devotos do Sutra do Lótus: o próprio Buda, Tiantai e Dengyo” (CEND, v. I, p. 468).

7. AURÉLIO, Marco. Tradução de Maxwell Staniforth. Londres: Penguin Books, 1964, p. 66-67.